sexta-feira, 17 de junho de 2011

só a antrofagia nos une (guest post)

Ctrl C Ctrl V

por Marina Arthuzzi, sexta, 17 de junho de 2011 às 16:42
1 - Orlando Orube escreveu sobre nós. Não concordou com a Primeira Campainha ter ganhado o prêmio de melhor texto inédito. (segue no final da nota, o texto dele). Estou respondendo...
Caro senhor Orlando Orube, viva a diversidade, a diferença e a liberdade de expressão, o senhor tem todo o direito de manifestar sua opinião. Nós também. Segue a nossa:
2 - Primeiramente..... 
A Primeira Campainha gostaria de agradecer ao SINPARC e demais membros da comissão de avaliação pelo prêmio de Melhor Texto Inédito concedido na última quinta-feira.
A respeito das considerações feitas pelo Sr. Orlando Orube à presidência do sindicato, cabe apenas o seguinte esclarecimento:
O agradecimento mencionado na cerimônia de premiação diz respeito à linguagem e pesquisa dramatúrgica realizada pelo coletivo - plagicombinação de linguagens e mídias - um termo originalmento utilizado na música pelo multiartista Tom Zé (que também foi mencionado durante o agradecimento) e a um pequeno trecho do texto vencedor:
"Eu estou com você Marina Viana. Eu estou com você Mariana Blanco. Eu estou com você em Belo Horizonte. Eu estou em Belo Horizonte, onde o sertão não virou mar, o mar não virou sertão, onde se desfaz uma panela para criar outra mas mesmo assim a gente senta no cimento."
Não houve em nenhum momento tentativa de ridicularizar a premiação ou desrespeitar a comissão que demonstrou tamanho reconhecimento ao nosso trabalho.
Esperamos com isso esclarecer e dissipar qualquer interpretação equivocada de nosso discurso de agradecimento.
Atenciosamente,
Primeira Campainha
Mariana Blanco - Marina Arthuzzi - Marina Viana
Nosso Manifesto entusiasmado:
SOU MOLEQUE SIM!
MEU JEANS É RASGADO SIM!
SOU A DAMA INDIGNA DAS ALTEROSAS, MEU SENHOR!
SINTO SE TE AFRONTO, SOU DE OUTRO TEMPO, CRESCI EM OUTRO TEMPO, ESCREVEMOS EM OUTRO TEMPO!
EU ESTOU EM BELO HORIZONTE E FAREI BARULHO O QUANTO PUDER.
Muitos amigos meus saíram desta cidade, mas nós batemos o pé. Vamos ficar aqui e bater  panela desde as alterosas. As idéias estão aí. Ovo de Colombo. Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Ditadura nunca mais! A vida não se resume em festivais!
No dia 15 de Junho de 2011, o primeiro prêmio do SINPARC dos anos 10, a minha geração esteve no palco. Muitas vezes. Gente com quem convivi, estudei, trabalhei, gente que se formou na escola de teatro da UFMG.

Portanto é  inegável a importância que esta escola, (tão jovem quanto nós) tem para esta cidade de horizontes montanhosos onde gorjeia Lô Borges e eu também!
Vocês não estão entendendo nada! Diria Caetano. Bundamolice! Diria Lobão.
Sou só uma moça latindo à mera cana sem dinheiro e sem banca, e sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 2016, mas deixa eu cantar que é pro mundo ficar odara, e tem gente que grita que tudo vai dar pé! Mas ah! VAI DAR PÉ... e eu não vou parar, não vamos parar, estamos aqui. Estamos em Belo Horizonte!
E quem será esse desgraçado dono dessa zorra toda? Tem dono? Num tem dono não!
Todo mundo tem arquivo! O cntrl c cntrl v quem faz é você! Por um pensamento auto sustentável: vomite e coma de novo.
Primeira Campainha                                       
Ano 1 da deglutição do B(ob)ispo S(ponja)rdinha

4 - Resposta de nossa Querida amiga Júnia Pereira ao Senhor Orlando Orube:
Caro Orlando,

Tomei conhecimento de suas considerações sobre o Prêmio
Usiminas/Sinparc e tomo a liberdade de lhe responder, pois acredito no
debate de idéias.
Primeiramente, gostaria de dizer que os grupos e artistas jovens
também são profissionais, mesmo que não tenham um grande passado. É
seu direito dizer que, na sua opinião, dar um prêmio a quem está
começando não é legítimo, e eu entendo a sua colocação que é
pertinente sob determinado ponto de vista, mas acho uma grande ofensa
você nos excluir, em seu texto, da categoria de profissionais da nossa
área. Se trabalhamos ou não com criação de personagem, e que tipo de
metodologia utilizamos para criação de texto, é uma questão estética
que você pode até não gostar, mas não tem o direito de nos excluir da
categoria, ok? Nós também gostamos de respeito. Tenho certeza de que
as artistas que ganharam o prêmio de Melhor Texto não quiseram ofender
ninguém com o seu discurso. Dizer que utilizaram “Ctrl c, Ctrl v” como
procedimento de criação não é uma ofensa a ninguém que trabalha de
outra forma. Se você se sentiu ofendido é porque não consegue
reconhecer o direito à diferença, o que é lamentável.
Em segundo lugar, gostaria de dizer que na minha opinião eu não estava
mal arrumada. Estava de calça jeans, tênis e blusa de frio. Ainda bem
que não fui de salto e vestido porque fui obrigada a sentar no chão,
já que, embora estivesse de posse do convite do SINPARC, pois meu
espetáculo estava indicado a um prêmio, não havia lugares para eu
sentar, pois os lugares constantes do meu convite foram ocupados por
outras pessoas. Isso sim eu achei uma grande falta de glamour. Mas eu
não estou reclamando disso, porque eu não ligo exatamente a mínima
para o glamour, o que na minha humilde opinião é uma coisa de uma
elite opressora. No entanto, eu respeito quem liga. Por isso, por
respeito a quem liga para isso, peço desculpas se incomodei alguém por
ter vibrado, por ter rido alto, por ter me manifestado efusivamente em
alguns momentos durante a premiação. É a primeira vez que participo do
prêmio e não imaginei que fosse um evento tão formal e talvez o fato
de ter sentado  no chão tenha me induzido à informalidade. Peço
desculpas então se incomodei e devo ter incomodado pois mesmo não
tendo ganhado nenhum prêmio, fazia parte do que você chamou de
“molecada mal arrumada”, mas esclareço sinceramente e com todo o meu
coração que jamais o meu riso foi de deboche a qualquer um dos
artistas presentes, a quem respeito profundamente como colegas de
profissão.
Aproveito a oportunidade para convidá-lo a assistir o meu espetáculo
It, que esteve em cartaz no seu teatro durante a Campanha de
Popularização, e hoje está na FUNARTE MG até o dia 26 de junho, quinta
a sábado 20h e domingo 19h. O texto é meu e de Amanda Dias Leite, é
inspirado em Clarice Lispector e em outros autores, tendo como um dos
procedimentos de criação a colagem, e a direção de cena é de Marina
Viana.
Abraços


Júnia Pereira.



4 - Texto de Orlando Orube
Considerações sobre o Premio SINPARC:

Estou triste, fiquei triste e não sei por que todo mundo engoliu o
deboche das moças que obtiveram o premio de dramaturgia adulta.

Sinto me isento para comentar, pois esse ano eu particularmente não
concorri a nada, e mesmo que o tivesse feito acho que não ficaria
calado.

Ir ao palco e jogar na cara de todo o mundo que o texto foi o premio
ao “Ctrl c, Ctrl v”, admitindo que o texto foi tudo colado de diversos
textos de outros autores, foi a maior afronta que já vi em muito
tempo. (E o premio deveria ser revisto pela comissão).

Acredito que os textos que não tem um autor reconhecido
individualmente ou inserido no meio de um grupo de criação coletiva
não devam concorrer a esse premio a exemplo de outras categorias, e
sim ao premio revelação, já que ele agora é multidisciplinar.

O premio SINPARC é e deve ser uma homenagem a produção profissional e
aos profissionais que de ela participam, e por tanto em todas as
categorias além do desempenho eventual de um artista deve-se respeitar
também o passado de todos e dar um peso a isso, não é legal dar um
premio a quem ainda não demonstrou nada e pode ter tido um dia feliz
ou ser simplesmente ele o que está no palco, sem criação nenhuma de
personagem.

Outra coisa:
Longe estão às datas em que o premio tinha glamour, hoje assistimos a
um bando de moleques mal arrumados debocharem (até politicamente) de
todos nós. E o pior é que ninguém fala nada, Rômulo, me ajuda cara,
você é um guerreiro, não deixa a coisa desandar por conta de uma
democracia falsa e risonha que em nada ajuda a nossa instituição.
Assisti na rua após o evento essa molecada morrer de rir de nós, que é
isso!

Respeito é bom, e eu gosto dele em qualquer situação.

Orlando Orube

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Bloguemus quae sera tamen


nos dias 10 e 11 de junho será realizado,  em belo horizonte, o Bloguemus Quae Sera Tamen: o primeiro encontro de blogueiros progressistas mineiros e vou integrar, convidada pela querida cynthia semiramis, uma mesa sobre cultura e ativismo no sábado, às 14 horas. a idéia é não só nos prepararmos para o encontro nacional dos blogueiros progressistas, que será realizado em brasília, mas também começarmos a juntar forças para a ação.
considero muito potente a percepção dos espaços das redes sociais como possibilidade de fabricação de "discursos sediciosos", rementendo à tradição mineira de inconfidência.
vejam maiores informações no link:
http://cynthiasemiramis.org/2011/06/05/blogueirs-de-minas-gerais-realizam-o-evento-bloguemus-quae-sera-tamen/

para a programação, vejam o link:
http://bloguemusqstmg.blogspot.com/2011/06/blogueiros-mineiros-realizam-bloguemus.html



sexta-feira, 27 de maio de 2011

como se fabrica uma mulher?

foto: nina caetano

foi realmente especial o workshop como se fabrica uma mulher? que lissandra guimarães - companheira do obscena agrupamento independente de pesquisa cênica  - e eu aplicamos para um grupo de 15 mulheres, alunas do curso de artes cênicas da ufop, durante a vii semana de artes, evento realizado pelos alunos do deart/ufop.
pensado em um formato intensivo, de 12 horas distribuídas em dois dias de atividade, o workshop possibilitou a experimentação de intervenções feministas na cidade de ouro preto, nos dias 23 e 24 de maio, as quais visaram discutir o modelo de feminino vigente na sociedade brasileira contemporânea. como pontapé inicial das atividades, decidimos apresentar nosso trabalho às mulheres participantes em sua realização prática, realizando uma intervenção no centro histórico da cidade, classificação zoológica da mulher.

foto: paula reis vianna

a partir do que foi experimentado e visto, discutimos o modelo de mulher e a sua "fabricação" em nossa sociedade como algo naturalizado. ao problematizar esse lugar, buscamos levantar as possibilidades de uma atuação política gerada a partir de nossas questões e críticas. daí, partimos para a discussão da proposta de ação a ser realizada nessas doze horas de trabalho e solicitamos, às participantes do workshop, os materiais que serviriam de base para a produção de ações por meio das relações do corpo com espaços e objetos associados ao universo da mulher.
à tarde desse primeiro dia (23), propusemos um trabalho sensorial, a partir de objetos relacionais, e uma prática de deriva pela cidade, para levantamento de uma cartografia afetiva por parte delas. o trabalho as sensibilizou para as possibilidades de ocupação na intervenção que realizaríamos no dia seguinte.
no dia 24, já com os materiais que elas e nós trouxemos - revistas, jornais, objetos e roupas - construímos as mulheres painel e, à tarde, já com os corpos montados, partimos para a "invasão" da cidade.

foto: nina caetano

as mulheres participantes se mostraram potentes, cada uma em sua individualidade e criação, e potencializadas pela força de uma ação coletiva.

foto: nina caetano

seus corpos, em confronto com a cidade e o cidadão ouropretano, causaram um acontecimento no qual estranhamento e ludicidade se encontravam.

foto: nina caetano

para nós e para elas, repensar e criticar as relações que são estabelecidas com o corpo feminino em uma sociedade machista como a nossa, na qual somos vistas ainda como objetos de propriedade masculina - como "brinquedos de homem" como afirmava o recorte de uma matéria de revista ostentado por mariana hippert, uma das mulheres em ação (ver foto logo acima) - produziu mergulhos que, com certeza, ainda vão encontrar reverberações mais profundas no que diz respeito às questões relacionadas ao nosso eu social e ao nosso papel, em questões - algumas adormecidas e esquecidas -  também associadas à nossa atuação como cidadãs e como artistas.
 
foto: nina caetano

esse foi só o início...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

FECHADA PARA BALANÇO

olá! tem estado "fechada para balanço" desde fevereiro, em função da escrita de minha tese de doutorado.
mas volto à toda depois de 15 de maio!
aguardem... aguardo.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

meninas massacradas

hoje estou de luto. chocada.
procurando entender a tragédia que aconteceu ontem em realengo, rio de janeiro. um rapaz de 23 ou 24 anos invadiu uma escola e matou 12 crianças, deixando outras 13 feridas.
procurando entender também a cobertura irresponsável e sensacionalista que a mídia fez/faz do caso (ironicamente, ontem também foi o dia do jornalista brasileiro). já o chamaram de terrorista islâmico, já disseram que tinha hiv. já fizeram do caso o nosso columbine.
mas essa mídia não se lembra de um detalhe. o que ele tinha era ódio contra mulheres.
um sujeito que invade uma escola e mata meninas. sim, meninas, nas quais ele atirou para matar, tem ódio. mas não é um ódio generalizado, contra todo o mundo. wellington não atirava a esmo.
wellington escolheu as vítimas: meninas bonitas. ele mirou em suas cabeças e atirou. entre as 12 crianças mortas, 10 eram meninas.
seu ódio era contra mulheres. isso tem nome: misoginia.
pode ser que ele tivesse problemas mentais. pode ser que ele tivesse treinamento militar. pode ser que fosse religioso (pois em sua carta, ele expressa claramente o desejo de se manter puro e perdoado por deus. mas não por alá). pode ser que ele sofresse bullying na escola.
com certeza, wellington tinha uma mente carregada de imagens de violência que essa mesma mídia que faz desse caso um circo, adora divulgar.
mas, acima de tudo, ele tinha ódio.
sim, esse foi um crime de ódio. como são os crimes contra judeus, negros ou homossexuais.
um CRIME DE ÓDIO: feminicídio. é preciso dar nome aos bois.

sexta-feira, 25 de março de 2011

classificação zoológica da mulher

Mulher vaca. Nome científico: femina docilis.

foto: nina caetano

Seu habitat natural é o lar, o ambiente doméstico. Adora passar, limpar, cozinhar e cuidar, mesmo sem vontade.O temperamento dócil das mulheres vacas associado à sua indiscutível utilidade econômica, fez da domesticação da espécie a mais antiga da história da civilização. Estima-se que já eram domesticadas pelos homens das cavernas.

Além da força de trabalho, esse animal é extremamente útil porque dele se aproveita tudo: você pode comer a carne e até arrancar o couro que a mulher vaca não reclama. Além disso, ela tem como qualidade a capacidade de tudo suportar, sem frescura. Carga, peso, culpa.

Cuidado! Não alimente com idéias, pode ser perigoso.



Mulher cachorra. Nome científico: femina vulgaris.

foto: nina caetano


Seu habitat natural é a rua, o bar, o baile funk. Normalmente tem hábito noturno, mas há espécies que funcionam dia e noite.

É um animal extremamente sociável, aceitando seu dono como chefe da matilha. Aliás, essa espécie precisa de dono para se sentir feliz.

Bastante utilizada como bichinho de estimação e enfeite de namorado, a mulher cachorra aceita bem a coleira, que usa como se fosse um colar de diamantes.

A mulher cachorra é relativamente dócil e leal. Se bem adestrada, ela lambe e até balança o rabinho. Mesmo sem vontade.

Para o adestramento, pode ser necessário o uso de tapinhas. Mas não se preocupe porque, para a verdadeira mulher cachorra, um tapinha não dói.

Cuidado! Não alimente com idéias, pode ser perigoso.

sábado, 19 de março de 2011

só muda de endereço



Coleção escritas performadas: só muda de endereço
(por nina caetano)
Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas. Mulher princesa. Mulher boneca. mulher dócil muda. mulher rosa. mulher doce. Mulher sobremesa. Mulher de cama e mesa. Mulher para desfrute. Mulher melancia, jaca, melão. Mulher Filé: "Chega de fruta. Homem gosta é de comer carne".
Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas. Sorriso. Batom Boca Beijo. Faca Tiro. Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são destruídas. 70% das mulheres mortas no país são vítimas de seus namorados, noivos, maridos. Amar. Casar. Cuidar. Compreender. Perdoar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Transar. Mesmo sem vontade. Morrer.
Mesmo sem vontade.
Mulher, uma obra em construção. Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você. Depiladores hidratantes sutiãs rolinhos pregadores talheres gleidy sache vassoura escova progressiva inteligente. Servir bem para servir sempre. Mulher. Ser humano do sexo feminino capaz de conceber e gerar outro ser humano e que se distingue do homem por essa característica. Mãe. A mulher em relação ao marido. Esposa. Plano de saúde, férias, filhos. Feia. Gorda. Jogada fora. Mulher, parcela da humanidade.
Mulher da vida. Meretriz. Mulher à toa. Meretriz. Mulher da rua. Meretriz. Mulher da zona. Meretriz. Mulher da comédia. Meretriz. Mulher. Meretriz.
Engulo tudo sem frescura.
A gente pensa que é mulher e é só fêmea, bichinho de estimação. Gatinha. Cachorra, cadela. Vaca, galinha, piranha. Filé. Gostosa. Quente. Pronta para consumo imediato. 100% completa. Samy, 18 aninhos. Loirinha e sapeca como você gosta. Adoro beijar. Mesmo sem vontade.
A cada 2 segundos, uma boneca Barbie é vendida em alguma parte do mundo. A cada 15 segundos, uma mulher é espancada no Brasil. Como você gosta. A cada ano, No Brasil, são feitas 629 mil plásticas. Silicone. Lipoaspiração. Peito. Bunda. Coxa. Como você gosta. Drenagem linfática. Jet bronze. Botox. Diet. Light. In. Out. Enterrada menina de 14 anos encontrada morta e estuprada. Arregaçada. Como você gosta.
Engulo tudo, sem frescura.
Sarada. Turbinada. Siliconada. Preparada. Espancada. Excomungada. Esquartejada. Jogada pros cachorros. na rodovia. na lagoa. na lixeira. Morta. Como você gosta.
Destruir. Matar. Aniquilar. Dar cabo de. Ex-terminar.
Eliza, 24 anos, esquartejada e jogada para os cachorros a mando do ex-amante e pai de seu filho. Leonice, 40 anos, 13 facadas, ex-companheiro. Maria Islaine, 31 anos, ex-marido. Ele apontou a arma para ela e atirou 7 vezes, sem que ela reagisse. Maria de Jesus, 28 anos, 3 tiros, ex-marido. Luciene, 24 anos, 2 tiros, ex-namorado. Polyana, 23 anos, 18 facadas, ex-marido. Eloá, 15 anos, ex-namorado: morta com 1 tiro na cabeça, sem que ninguém reagisse. Janine, 16 anos, grávida de 8 meses, morta pelo namorado com pelo menos 42 facadas, sem que ela eu você. sem que ninguém reagisse.
Amar. Sacrificar. Padecer. Parir. Amar. Amamentar. Cuidar. Limpar. Amar. Jogar fora. É tudo igual, só muda de endereço.

sábado, 12 de março de 2011

a mãe é culpada de tudo: elaine césar

essa história está acontecendo agora, nesse país. e o impacto enorme muito que me causa é porque o caso de elaine césar é emblemático de um posicionamento atávico que vejo em notícias de jornal diárias, em comentários cotidianos. resumo em: a culpa é da mulher. talvez, até mais especificamente, a culpa é da mãe. porque ama demais. porque não dá amor. porque não educa direito. porque separou. porque não pensa nos filhos. porque casou de novo. porque fica junto desse aí. porque trabalha fora. porque é egoísta. porque não trabalha e depende do marido. e cada expressão desse pensamento é apontado como um julgamento, como uma sentença: a mãe não é capaz de criar o filho que carregou 9 meses no ventre, alimentando-o de sua carne e sangue.
fiquem com elaine. acompanhem sua história e sigam seu blog (idéia, bem como o guest post de elaine, copiada do blog solteiras e descoladas).
tomem atitudes, cada uma: divulguem, criem cartas de repúdio, mobilizem outras pessoas.



Meu nome é Elaine Cesar.
42 anos.
Decidi escrever como uma forma de expor uma realidade que estou vivendo e sei que várias mulheres e homens estão passando o mesmo nesse momento.

Esse momento acabou me levando no desejo de produzir um documentário_filme sobre um dos temas que estou vivendo: Alienação Parental.
É aqui nesse espaço que vou, livremente, fazer meu caderno de produção e estender meu diário a essas paginas.
Não quero que esse blog se torne um espaço para defesa, e sim um espaço onde se possa também trocar experiências com pessoas que já viveram ou vivem situações ligadas a alienação parental, falsas acusações de abuso sexual e implantação de falsas memórias, um crime muito comum que a sociedade e parte da justiça não estão preparados para enfrentar.

Hoje vivo uma gravidez de risco de 5 meses.

Hoje vivo um Câncer Linfoma Não-Hodkin das Células T num estágio avançado.

Hoje vivo uma separação litigiosa onde fui acusada falsamente de ter abusado sexualmente de meu filho de 3 anos de idade.
Fui acusada de ser viciada em drogas, portanto incapacitada de criar uma criança.
Hoje vivo um processo na justiça, também parte dessa separação onde um desembargador decidiu que por trabalhar num teatro como Oficina não sou capacitada de criar um filho.
Hoje só posso ver meu filho a cada 15 dias, sem poder pernoitar e com visitas vigiadas.
Hoje vivo a maior esperança que tudo isso é só uma passagem.
Vivo um grande amor.
Vivo uma grande luta que esta sendo um sucesso contra esse câncer e a certeza que logo Théo estará de volta nos meus braços junto com Rudá, esse bebezinho que segue guerreiro dentro de mim, nos alimentando nessa grande batalha que é a vida.

Desde que recebi de um Oficial de justiça um documento com acusação de PEDOFILIA, meu corpo murchou. Naquele dia, era uma quinta feira em dezembro, perdi todas as minhas forças, pela segunda vez estavam me roubando meu filho. Um papel cheio de inverdades com tantas acusações falsas.
Ali, eu morri. Poucos dias depois soube do câncer.
Achei que tudo aquilo era um grande engano, ainda mais vendo que a acusação estava vindo da pessoa com quem dividi alguns anos da minha vida, que morou comigo por esse tempo e que juntos fizemos nosso maior tesouro, o menino Théo.
A acusação foi feita pelo pai do meu filho; Rafael Gonçalves e aceita pelo tribunal de justiça que segue um código antigo que “protege” a criança de pais pedófilos, imediatamente dando a guarda para o “autor do processo”.

Até hoje não fui chamada para depor, até hoje nenhum assistente social ou psicólogo vieram conhecer minha casa, até hoje ninguém relacionado a vida de Théo, escola, amiguinhos, vizinhos foram contatados.

Toda acusação foi aceita em cima do discurso e um ex-marido que não aceita nossa nova condição. E que desde então não aceita falar e nem olhar pra mim, nem sequer pra falar de nosso filho.
Até hoje acredito que foi só um pesadelo, mas não foi.
É realidade e uma realidade de que não faço parte sozinha.
É um ato desesperado feito por pessoas fracas que não tem forças de assumir a realidade nova, que vestidos de uma fantasia paternal usam seus filhos como armas e não percebem que tudo isso ataca diretamente a personalidade de uma criança que na verdade só que ser amada e respeitada.
Hoje, estou mais forte em tratamento e focada nessa luta de ter meu filho de volta e para isso tenho que estar mais viva que nunca.

Blog da Elaine: http://elainecesar.blogspot.com/

quarta-feira, 9 de março de 2011

Saia de bruxa hoje (Maíra Kubík Mano)

Do blog: http://viva.mulher.blog.uol.com.br/


Não, nada de sair por aí fantasiada de princesa, noiva ou prostituta. E nem pense em aparecer de cigana ou palhaça! Se eu te encontrar de odalisca, juro que viro a cara.

A idéia é a seguinte: pegue um chapéu preto ou roxo bem alto. Uma capa vai bem também
– pode ser das mesmas cores, para ficar combinando. E uma vassoura, sempre tem que ter uma vassoura. Se quiser, ponha um nariz comprido e disforme, afinal, nossas homenageadas eram feias de dar dó pelo menos segundo os desenhos animados da Disney. Um toque especial. Ah, e desenhe uma verruga, fundamental!

Saia, enfim, de bruxa! Por quê? Porque hoje é 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, e essas libertárias ousadas foram um pedaço da nossa história rumo a uma sociedade mais igualitária. Queimadas nas fogueiras da Inquisição sem piedade simplesmente porque estudavam a natureza e exerciam a medicina alternativa, elas entraram para os anais como forças maléficas. Óbvio: eram um símbolo do poder da mulher e isso não poderia ser tolerado.

Mas agora sim. Dê gargalhadas sinistras por aí. Você pode. E deve!


8 de março e carnaval...

DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Feminismo depois do carnaval
Por Ligia Martins de Almeida em 8/3/2011

Desfilar seminua, rebolar com gestos eróticos, tentar se impor apenas pela sexualidade é uma conquista feminina ou o máximo da submissão? Esse seria um bom tema para discutir nesse no Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 8 de março, que neste ano caiu na terça-feira de Carnaval. Em meio às fotos dos desfiles e o destaque para as mulheres mais bonitas, mais famosas ou menos vestidas, os jornais reservaram espaço para discutir nada mais nada menos do que feminismo.
O caderno "Feminino" do diário O Estado de S.Paulo dedicou duas páginas ao tema ("Feminismo, ontem e hoje") e começa afirmando:
"O movimento, que muitos pensam fazer parte do passado, segue atuante e tem atraído novas gerações de militantes. Para especialistas, a luta pela igualdade de direitos continua – mas os desafios são outros."A antropóloga e socióloga Lia Zanotta Machado, autora do livro Feminismo em Movimento, é quem fala dos novos desafios, entre os quais destaca o aborto:
"Existe um pensamento em comum, nas classes média e baixa, de que quando se trata de uma pessoa próxima e cujas razões são conhecidas, o aborto é aceito. Mas é preciso pensar nas demais mulheres que, por circunstâncias afetivas, sociais e econômicas, não podem levar a gestação adiante".O segundo desafio a ser vencido, diz a antropóloga, é a participação das mulheres na política:
"Segundo a organização internacional União Interparlamentar, num ranking de 180 nações, o Brasil ocupa o 144º lugar em relação à presença feminina nos parlamentos. Nesse âmbito, o fato histórico de termos uma mulher na presidência e mais ministras produz um efeito de desnaturalização do espaço masculino no poder".Acesso a direitosMas o grande desafio mesmo é diminuir a diferença entre as mulheres mais ricas e as mais pobres, diz outra entrevistada do jornal, a psicóloga Nalu Faria, coordenadora geral da Sempreviva Organização Feminista:
"O acesso aos direitos não chega a todas as camadas. No Brasil, as mulheres são as mais pobres, em particular as negras e rurais. Temos só 52 mulheres em cada 100 que estão no trabalho assalariado." A luta da Marcha Mundial das Mulheres, que ela integra, é por "um salário mínimo mais digno, que impacte de forma positiva a vida dessas mulheres".
Junto como o salário digno, vem a luta contra a violência doméstica, ainda um problema grave: a cada 15 segundos, uma mulher é vítima de agressão no Brasil. Embora a Lei Maria da Penha tenha tornado o tema mais público, é importante trabalhar no âmbito da prevenção.
"A violência, fruto da relação de poder, não acontece de uma hora para outra. Começa com o controle, o isolamento e a desqualificação da mulher, que se sente fragilizada, com baixa autoestima e economicamente dependente."Tomara que após o Carnaval – que, como diz o antropólogo Roberto da Matta, "é o rito que libera, deseja, solta" – e com a volta da presidente Dilma Rousseff de seu retiro com a família numa área restrita e protegida de câmeras fotográficas, os jornais abram espaço, a partir do Dia Internacional da Mulher, para discutir o feminismo, suas conquistas e, o mais importante, o que ainda falta para fazer para que todas as mulheres tenham pleno acesso aos direitos que lhe são garantidos.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

objetos relacionais

foto de: www.sheilahuertas.com.br

o espaço é um objeto relacional. suas paredes. cores. texturas. temperaturas, sonoridades e planos. andar pelo espaço, percebê-lo, inCORPOrá-lo... o chão. janelas quentes. vidraças frias. nesgas de luz. cantos escuros. quinas. cortinas. vento. sem pressa. sem idéias.
percepção.
de olhos fechados. abrir os outros sentidos. sair do plano alto, racional. deixar todo o corpo ter contato. esvaziar-se. esvaziar-se. esvaziar-se.
construir um terreno árido para que as coisas possam surgir. para que possa surgir a dança com o espaço. com os corpos soltos nele. não ignore o outro, mas deixe-o passar. dança com o espaço. e com os objetos soltos nele.
tecidos. tubos. plásticos moles. plásticos duros. água. algodão. balão.
tocar os objetos mas não apenas com as mãos. as mãos, como os olhos, impõem sentidos. perceber cada objeto com o corpo. seu cheiro. temperatura. textura. elasticidade. deixar que também o objeto aja sobre o seu corpo. o corpo disponível responde.
"existe uma atenção que busca e outra que encontra".
não busque a forma. não represente. perceba. receba. o corpo responde e os olhos já podem se abrir. considere as cores. luminosidades. alturas.
considere as proximidades. as distâncias. o espaço entre os corpos. o vazio e o cheio. considere o outro. seu corpo. seu ritmo. movimentos. ações. deixe-se contaminar. ALTERar-se.
não somente pelo toque. considere o espaço entre os corpos. o espaço entre.
relacionar. não impor. relacionar. receber. doar. propor. propor. não impor.
receber o outro com seu corpo. perceber a pele.
trios. exclusão. energia. intensidades. impulsos.
os três homens no armário. territórios. a dança da masculina força. fera.
o brincar de três. água. pano. enrolar-se. dança das cadeiras. o corpo erguido e os bonequinhos coloridos que se espalham pelo chão. a dança dos corpos.
trios. relação amorosa. o brincar de três. sonoridades. risadas. corpos que se tocam. se batem. se cheiram. se esfregam. shishishishishishishishishi produzindo sons. produzindo memória impregnada no corpo.
fim.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

domingo, 12 de dezembro de 2010

possíveis textos

você me ama?
amo.
por quê?
porque você é loira. e gostosa.
melhor, porque você é muda. e está em cima da mesa. pronta pra mim.


gelada.
loira gelada.


(isso poderia ser o texto de uma propaganda de cerveja. mas não é.)
*
*
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

mulheres de programa

hoje, 25 de novembro, fiz mais uma programa.
como sempre, não o fiz sozinha... que graça teria?
melhor seria dizer: nós o realizamos. 11 mulheres e um bendito fruto.


tornar real um programa é organizar um plano de risco e colocá-lo em ação. para desprogramar corpo e meio...

"mulheres painel em deriva pelo hipercentro de belo horizonte oferecem seus corpos para serem lidos. nestes, notícias de jornal se misturam a imagens de mulheres e a escritas improvisadas".




dando prosseguimento à investigação do feminino que a gente vem realizando (lica e eu), tínhamos proposto para as mulheres da marcha mundial das mulheres uma ação coletiva para o dia internacional da não violência contra a mulher. seria uma ótima ocasião para recolher mais imagens junto com anna e taynara, as moças da m.m.m. com quem estamos realizando uma parceria de trabalho para desenvolvimento de material audiovisual.
elas, para seu trabalho final na oi kabum. nós, para desenvolvimento de nossas questões.

a idéia era criar uma multiplicação, uma seriação de figuras femininas que, marcada por certas semelhanças - as mulheres teriam em comum os corpos/roupas de jornal - e circunscrita em uma determinada área, tenderia a provocar interrupções no fluxo cotidiano da cidade, um possível estranhamento.

com a necessidade das mulheres da marcha se concentrarem nas manifestações mais diretas e sem tempo hábil para prepará-las para a ação que pensávamos, acabamos por decidir convocar outras performers de belo horizonte que imaginávamos comungar em termos não só de linguagem, mas também de interesse temático ou de atitude política.
email, facebook e, em breve tempo, conseguimos um bom número de mulheres interessadas em realizar uma ação conosco.

como disse, fomos onze ao total. dessas, seis saíram, efetivamente, de mulheres painel: lica, letícia castilho, sílvia andrade, marcelle louzada, viviane (preciso saber seu sobrenome) e patrícia campos, pesquisadora que integra a rede colaborativa do obscena.
todas as outras (nina, marta, juliana, anna e taynara) e o bendito fruto, fernando, ficamos no necessário apoio: dentro de sala e no acompanhamento/registro na rua. afinal, temos que estar preparadas para tudo (também seria interessante saber o sobrenome de todas/o para os créditos nas fotos/imagens).

em evidente alusão a um tempo de guerrilhas, acabei por nomear a ação de ação performática 25 de novembro. letícia veio a caráter, vestida pra guerra. cada mulher painel construiu sua singularidade... silvia com seus sapatos de jornal e guarda-chuva, patrícia de "chanel", marcelle com sua cachorra e viviane de rainha... lica com sua mitra, aráutica...


nos corpos números de violência, bundas plastificadas e sorrisos cor de rosa. olhos roxos e palavras editadas. desprogramando. desprogramando. desprogramando.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

formas de morrer lentamente.

lipo.
aspiração mata.
mata sorrir. servir bem para servir sempre.
mata amar casar parir amamentar cuidar limpar. agradar. esquecer. perdoar.
transar. mesmo sem vontade.
o soutien. a calcinha de renda e o sexo oral nele como nunca nela (ela finge que não gosta para não ter que enfrentar sua cara de nojo).
o botox. o hidratante. o batom. o rosa. o rosa. o rosa. e o sorriso.
vai matando devagarinho. comendo a alma da gente. isso é o que me mata, sabe?

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Arquitetura III

Daqui de cima eu vejo tudo.
a cidade inteira.

luzes. prédios. ruas. carros. pessoas passam.

É uma questão de destino.
Uma arquitetura é feita de planos traçados. de linhas. retas. direções.
Uma arquitetura é Grande. Dura. Magnífica.
mas por dentro dela. de mim.
algo acontece.
(o interior carcomido)
uma arquitetura é feita de vazios. de cheios. é feita de passagens. de lugares vivências.
no interior pleno de mulheres algo sobe pelos muros. infiltra-se pelas paredes. escorre pelos canos. pelas velhas. veias. pelas coxas. cabelos. escorre das bucetas. bucetas. bucetas. sobem pelas paredes.
os corpos conformados nos vazios escrevem um texto que não conseguem ler.
Nos corredores. Nas grades, nas celas. No pátio. No cimento.
Na veia.
Dentro dela. de mim. uma mulher espera pegar a dureza daquele lugar torto.
Por dentro, estou carcomida e ela também. Somos cheias de segredos. Eu e ela. a mulher. O cheiro da urina grudada na pele.
Quanto tempo até o chão? Quanto tempo até seu rosto tocar o chão vermelho?
A carne. Em direção à queda.

Ela grita e ninguém escuta. Ela (eu) está numa cela que faz parte de um andar que faz parte de um pavilhão que faz parte de uma cadeia de prédios que faz parte de um quarteirão que faz parte de um bairro que faz parte de um distrito que faz parte de uma cidade que faz parte de um estado que faz parte de um país... Ela grita. eu grito. e ninguém escuta.

Do alto da torre, o olho passeia. eu invento um altar.
Para um deus possível que lá do alto da torre vê a vida passar.
Na televisão. Na esquina do mundo.
E eu (ela) aqui sentada. nessa cela. nessa sala. nesse tubo de ensaio.
A gente só devia conhecer o que vive.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Arquitetura II

Daqui de cima eu vejo tudo.
a cidade inteira.
luzes. prédios. ruas. carros. pessoas passam.
É uma questão de destino.
Uma arquitetura é feita de planos traçados. de linhas. retas. de vazios. de cheios.
Uma arquitetura é feita de passagens. E de muros.
Uma arquitetura é magnífica. Grande. Dura.
mas por dentro dela.
de mim. (o interior cheio de mulheres)
algo acontece. escorre pelos canos. sobe pelas paredes. pelas coxas. cabelos. bucetas. bucetas.
pelas veias.
o cheiro. (o interior carcomido)
os corpos conformados nos vazios escrevem um texto que não conseguem ler.
Nos corredores. Nas grades, nas celas. No pátio. No cimento.
Na veia.
Dentro dela. de mim. uma mulher espera pegar dureza daquele lugar torto.
Por dentro, estou carcomida. Ela também. Somos cheias de segredos. Eu e ela. a mulher.
O cheiro da urina grudada na pele.
Quanto tempo até o chão? Quanto tempo até seu rosto tocar o chão vermelho?
A carne. Em direção à queda.

Ela grita e ninguém escuta. Ela (eu) está numa cela que faz parte de um andar que faz parte de um pavilhão que faz parte de uma cadeia de prédios que faz parte de um quarteirão que faz parte de um bairro que faz parte de um distrito que faz parte de uma cidade que faz parte de um estado que faz parte de um país... Ela grita. eu grito. e ninguém escuta.

Do alto da torre, o olho passeia. eu invento um altar.
Para um deus possível que lá do alto da torre vê a vida passar.
Na televisão. Na esquina do mundo.
E eu (ela) aqui sentada. nessa cela. nessa sala. nesse tubo de ensaio.
"A gente só devia conhecer o que vive".

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

importa se ela é mulher?

um dia após a eleição para presidência do brasil, me pergunto: importa se ela é mulher?
nesse dia histórico, em que pela primeira vez (após 35 homens governando o país) uma mulher alcança o posto de PRESIDENTA (assim, com A. os gêneros não são neutros), me pergunto: importa? mulher é uma condição política (como diria lennon, ela é o negro da humanidade).
disse há pouco: os gêneros não são neutros. o considerado neutro é, de fato, o gênero masculino.
ele nos é dado. como se dele viesse toda a criação, toda a eva. o masculino é visto como natural.
Homem (diz o aurélio). s.m. espécie humana, humanidade: a evolução social do homem. a criatura humana sob o ponto de vista moral: todo homem é passível de aperfeiçoamento. pessoa do sexo masculino. macho.
natural então é ter presidente, governador, prefeito, senador. estudante. médico. sargento. soldado. advogado.
engraçado, que mesmo quando é com a, é o masculino que conta. não falamos a poeta. tem que ser poetisa... o músico e a musicista (o feminino, aqui, só serve para a abstração: a palavra música jamais poderia ser colada a um corpo fêmea).
o natural é ser macho. fêmea é a dissidência.
então presidenta soa "feio", "cacofônico" (melhor falar a presidente, né? é mais natural...)
hoje, uma semana depois da experiência obscena com o cross-dressing proposto por leandro, me pergunto: existe neutralidade na discussão de gêneros? o que é ser mulher? homem? o que nos define? o sexo? o comportamento? as roupas, tons, gestos?
o que nos faz mulher?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

fênix

para as criaturas de ar, é necessário que as coisas respirem. são como flautas: quando o ar circula, fazem música.
já para as criaturas de fogo, a circulação de ar implica em incêndio. as coisas queimam dentro delas.
são como fênix: precisam queimar tudo, se queimar inteira.
para nascer de novo outra.

Matéria do SBT conta que bolinha de papel atingiu Serra

gosto do link para o mulheres com dilma, site bem interessante...

Matéria do SBT conta que bolinha de papel atingiu Serra

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

conversas possíveis para um absurdo fim

eu não te conheço.
conhece sim. você vinha muito aqui.
você mora aqui?
moro. você ia perguntar: e eu?
como?
você ia perguntar: e eu?
eu sussurro: você mora dentro de mim. como agora.   

você ficou emocionado, não?
porque eu sei que é verdade. eu estou aqui, dentro de você, e sei que moro aqui. desde sempre.
você está chorando?

também estou emocionada. estamos nos despedindo, não é?
você disse: nunca amei uma mulher como você.

nunca amei uma mulher como você. por isso também fico emocionado.
de novo as lágrimas.
eu acho que você nem devia chorar. já passamos pelo pior. agora é a calmaria.
tem razão. fiquei pensando como seríamos nós agora. depois de tudo.
pode ficar tranquilo porque, antes, você explicou tudo perfeitamente bem. você foi claro. Sobretudo.
não. quero dizer agora, enquanto você se aninha ao meu corpo e eu acaricio seus cabelos.
achei que não ia perguntar. queria que o abraço nos tivesse derretido. mas isso não aconteceu.
então nada mudou.
nada mudou.

sábado, 16 de outubro de 2010

conversas possíveis para um absurdo fim II

você sabe o que estamos fazendo?
sim. já fizemos isso antes.
mas você sabe mesmo o que é isso que estamos fazendo?
não estamos casando. nem namorando. nunca mais.
e agora que você sabe continuaremos fazendo isso?
eu já sabia disso quando começamos.

conversas possíveis para um absurdo fim III

você sabe o que estamos fazendo?
sim. já fizemos isso antes.
você não acha pouco para nós?
eu também gostaria muito que fizéssemos mais.
mas você sabe mesmo o que é isso que estamos fazendo?
não estamos casando.
e agora que você sabe continuaremos fazendo isso?
não se preocupe. eu já sabia disso quando começamos.
vamos fazer assim?
eu gostaria muito que fizéssemos isso direito.
também prefiro que façamos direito.

nosso amor pairava acima do real.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

conversas possíveis para um absurdo fim IV

preciso urgentemente tirar o seu corpo do meu.
imagino que você tenha alguma idéia sobre isso.
andei considerando algumas possibilidades: um ritual de purificação.
não sou encosto.
sexo com desconhecidos.
é. você precisa urgentemente tirar o meu corpo do seu.
eu já havia dito isso.
vai deixar uma marca.
sexo com desconhecidos é eficaz nesse sentido.
e um vazio na alma.
ela está preenchida com o que já não existe.
e o meu corpo? como fica?
esse problema não é meu.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

conversas possíveis para um absurdo fim V

adoro fazer poesia com você.
adoro fazer amor com você.
(pausa)
você ainda enrubesce.
adoro fazer o que a gente faz.
adoro tudo o que já fizemos.
esses são os últimos laços se desfazendo.
reparou que já não nos encontramos por acaso?
e que quando ligo você esqueceu o telefone?
então é hora de nos despedirmos.
não vamos mesmo? nunca mais?
nosso amor pairava acima do real.


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

conversas possíveis para um absurdo fim VI

preciso urgentemente tirar o seu corpo do meu. tirar essa fruta esse fruto que nasce que brota no rasgo do ventre. no útero. preciso abortar.
abortar esse amor. é preciso. libertar esse corpo. é preciso. recriar a metade que fica.



essa conversa mais parece um monólogo.
ou uma sentença final.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

a matemática do amor

a matemática do amor é matéria complexa. soma-se. sub.trai-se. logra-se o ritmo.
nessa matemática é preciso considerar os fatores.
corpo. mente. coração. mesmo que a ordem não altere o produto.
porque na matemática do amor somos andróginos de nós mesmos.
amor gostoso é quando ao querer do corpo se junta a vontade do coração.
ah, nessa matemática a soma vira multiplicações infinitas...
os quereres.
mas isso não é a operação completa.
na redonda laranjice de nós mesmos, fazemos uma máginática e transformamos três metades (é preciso considerar a mente) numa plenitude plena solitária não bastante em si mesma.
essa completude tem objeto. o desejo de corpo e alma tem mira.
na suprema redondice de nós mesmos almejamos uma redondice de estranhas moléculas querendo-se líquidas aguar no outro.
a matemática se complica. agora são muito os nossos fatores. é possível liquefazê-los?
é possível lique-fazer-nos?

terça-feira, 5 de outubro de 2010

nove meses

nove meses. corte. precisão cirúrgica.
alguém deveria nascer. ou morrer hoje.

(eu devia ter dito algo)

morrer.
em um mundo de linhas de atravessamento temporal uma escolha é sempre a morte de uma outra vida possível. ou de um amor impossível.

(algo. uma escritaimpossível)

esse poderia ser um manifesto pelo amor possível.

(mas o amor possível não precisa de manifesto. somente daquilo que em corpo já está manifesto. afinal, amor, como conhecimento, é um problema de fazer.)

em um mundo de atravessamentos toda morte é morte do impossível.

(eu disse lá atrás que alguém deveria nascer ou morrer hoje. e eu deveria ter dito algo.
ao dizer isso, quase disse alguém novamente. alguém deveria morrer. mas quem? não é possível saber, no entanto estou de luto e choro a minha alma.)

um corte. numa operação de precisão cirúrgica um corte foi feito. algo deveria nascer hoje? algo deveria brotar desse corte, ser parido, gerado numa continuidade da vida possível ou de um amor impossível? (eu disse: algo) ou, como diria minha sábia mãe: amor impossível não existe.

(abissal sabedoria. amor impossível não existe.
amor impossível não está lá.)

pois velemos o morto. amém.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

NEM TÃO BONECAS: CARTA OBSCENA


CARTA OBSCENA, ABERTA À POPULAÇÃO DE BH E A TODOS OS INTERESSADOS
Queremos não só relatar o amadorismo, o desrespeito e a ignorância que marcaram a 10ª edição do FIT-BH – do qual participamos com um dos trabalhos locais selecionados em edital público – mas também exigir a discussão da política cultural de privatização de espaços públicos, mercantilização e consumo da arte implementada pela gestão de Márcio Lacerda, a qual encontra reflexo no modo de organização desenvolvido pelo Festival Internacional de Teatro deste ano. Para isso, vamos fazer uma rápida recapitulação dos eventos que compuseram a “novela” FIT.
Apesar desse importante festival ter sua realização garantida por lei e contar com dotação orçamentária e previsão bienal, em março desse ano – a cinco meses do FIT acontecer e em pleno processo de seleção dos grupos locais – a Fundação Municipal de Cultura anuncia seu cancelamento, alegando desde falta de verba até escassez de bons espetáculos para compor a grade. Diante da reação da classe artística, a FMC volta atrás em sua decisão – sendo o retorno tão autoritário, arbitrário e leviano quanto o cancelamento, pois não há diálogo nem consulta à população, ou justificativa real em relação às decisões. No mesmo dia do anúncio de Thaís Pimentel, presidente da FMC, demitem-se os curadores do evento, Richard Santana e Eid Ribeiro e, em seguida, o coordenador geral, Carlos Rocha. No dia 12 de abril, ela anuncia o novo modelo de gestão do FIT: a coordenação será assumida pelo corpo de diretores da Fundação, o que permite o alinhamento da “coordenação às diretrizes institucionais da FMC”.
Com nossa intervenção urbana selecionada a integrar a programação (resultado publicado em abril), aguardamos a comunicação da FMC para podermos, como em todo festival do qual já participamos com Baby Dolls, negociar as condições de apresentação. No dia 10 de junho, preocupados porque não havíamos recebido ainda nenhuma comunicação, entramos em contato com o secretário da comissão de seleção, André Ferraz, para iniciarmos as negociações e recebemos como retorno um breve email da coordenação do FIT avisando que seríamos comunicados em breve das datas, horários e locais de apresentação.
Temerosos com a pouca comunicação e dispostos a garantir a realização da intervenção em suas especificidades artísticas, dirigimos um email no qual explicávamos claramente as condições de realização de nosso trabalho. Ficamos aguardando e não obtivemos retorno. Após insistência, obtivemos resposta de que não seria possível integrarmos a programação descentralizada do Festival e enviamos, então, nova proposta, centralizando a nossa ação em uma ocupação das estações de metrô.
Nesse mesmo email, reiteramos as condições levantadas por nós desde nossa primeira comunicação: a impossibilidade de existir um aparato de divulgação nos locais de intervenção e a solicitação para que não fosse divulgado o horário em que ocorreriam as ações. Fomos informados de que nossa proposta tinha sido repassada ao coordenador Rodrigo Barroso e que ele entraria em contato para resolver as pendências. No dia 5 de julho, ainda sem retorno algum, recebemos da produtora Ana Jardim uma solicitação de rider técnico.
Novamente preocupados com a falta de comunicação do FIT e com o silêncio em relação às nossas questões, apelamos para as redes sociais e no dia 11 de julho postamos uma mensagem no Facebook de Rodrigo Barroso, solicitando uma reunião pessoal para definir nossa participação no Festival. No mesmo dia, ele retornou, também pelo Facebook, com garantias de admiração e respeito pelo nosso trabalho, mas ainda com informações gerais, da mesma ordem das recebidas anteriormente. Ou seja, a negociação não avançava.
Cientes da urgência de solucionarmos os termos do contrato de modo claro e transparente, fizemos contato telefônico com Barroso, fechando então as estações de metrô Minas Shopping (proposta mantida por ele) e Vilarinho (sugestão nossa), além das imediações do terminal rodoviário. Nesse contato telefônico, novamente colocamos nossas condições e, em relação à divulgação, ficou ACORDADO que não haveria, nos locais de realização das intervenções, NENHUMA FORMA DE DIVULGAÇÃO do FIT ou da ação em si: banners, spots etc. Em relação ao horário, Barroso informou da necessidade de oferecer ao público as informações, mas ficou de estudar uma alternativa – a colocação na grade do período de ocorrência das ações (fim da tarde, horário de almoço) – para a qual nos daria retorno. No dia 12 de julho, mais de um mês depois de nosso primeiro contato e sem que tivéssemos obtido, de fato, uma resposta satisfatória da FMC, recebemos outra comunicação sumária, já definindo os horários de apresentação e, em seguida, a carta de oficialização de nossa participação no FIT, assinada por Barroso.
Na primeira semana de agosto, fizemos uma visita técnica aos locais de realização da intervenção e, já no primeiro local visitado, a Estação de Metrô Vilarinho, fomos informados de que o FIT não havia enviado notificação de qualquer atividade no local, mesma informação obtida mais à frente, na Estação Minas Shopping. Somente o terminal rodoviário tinha sido comunicado de nossa atividade e somente nele tínhamos sala de apoio. Nessa visita, nosso produtor negociou diretamente com o metrô a liberação das catracas e pontos de apoio, necessidades que a produção do FIT havia afirmado não ter conseguido resolver, tendo nos informado que teríamos de arcar com os tickets necessários à realização da intervenção. Enviamos no dia seguinte um email a Ana Jardim, informando-a das nossas conversas e das negociações firmadas pelo nosso produtor, além do plano de desenvolvimento da ação.
No dia 10 de agosto, demos início às nossas intervenções e já nos deparamos com o descaso e a má vontade da equipe de produção que, sem entendimento do trabalho, pressionou o encaminhamento da intervenção para o local onde, pasmem! estava todo aparato de evento que, segundo o ACORDO FIRMADO COM RODRIGO BARROSO, precisamente NÃO DEVERIA ESTAR LÁ: banner, controle de público e presença de pesquisador/entrevistador durante a realização da intervenção. Questionado sobre a presença do banner, o produtor respondeu: “se não gostam de divulgação, porque estão em um festival?”
Nesse momento tivemos a real dimensão do quão despreparadas estavam as pessoas que assumiram nossa produção. Ao longo da intervenção, fomos insistentemente abordados pela coordenação do metrô, pois a ORGANIZAÇÃO DO FIT AINDA NÃO HAVIA COMUNICADO A REALIZAÇÃO DO EVENTO AO METRÔ. Insistentemente tentamos que os produtores presentes assumissem o controle e resolução da situação, mas isso não ocorreu. Eles apenas assistiam nosso produtor se esmerar para permitir que nossa ação se realizasse assim como havia saído na programação, mas não como tinha sido selecionada para acontecer.
Após o término, deixamos clara a necessidade de falarmos com eles, mas os produtores simplesmente se esconderam, sem oferecer água, lanche e sem, sequer, nos informar onde o transporte nos aguardava. Indignados com o rumo que as coisas estavam tomando, entramos em contato com a produção por telefone e por email, para informar de não havia a possibilidade de executar nossa ação nas condições do primeiro dia e solicitando reunião para reorganizarmos o trabalho, mas, uma vez mais, não obtivemos retorno.
No dia 11/08, novamente o amadorismo e má-vontade da produção se mostraram: para o transporte dos materiais e do pessoal ao terminal rodoviário, foi enviada um van completamente cheia de bancos, adequada ao transporte de um grupo grande de pessoas sem bagagem. Dividimos o transporte com o carro de uma das integrantes da ação e nos dirigimos ao local, onde verificamos que a sala de apoio estava sem condições mínimas de uso: suja, sem água, luz ou lanche. Verificamos também que os produtores, designados para nos auxiliar, estavam, ao invés disso, “vigiando” o banner afixado na entrada da rodoviária, enquanto nosso produtor providenciava, junto aos funcionários do terminal, as soluções para nossas necessidades. Chamamos novamente a produção para uma conversa em relação às condições negociadas para as nossas apresentações e obtivemos o seguinte retorno: “Caso vocês não façam nestas condições, a FMC suspenderá o pagamento do cachê”.
Indignados com o absurdo da situação e percebendo que com a produção não conseguiríamos resolver nada, novamente apelamos para as redes sociais e deixamos uma mensagem no Facebook de Barroso. Diferentemente da primeira vez, quando obtivemos um pronto retorno, ficamos sem resposta. Como também ficaram sem resposta os telefonemas e recados deixados na secretária eletrônica do referido coordenador. Fizemos uma reunião e resolvemos, apesar de todo o desrespeito e desconsideração por parte da organização do FIT, cumprir nossa parte no acordo até o fim e realizar a última intervenção.
No dia seguinte, ao iniciarmos nosso percurso em direção à estação Minas Shopping, recebemos um telefonema da produtora Ana Jardim informando que a intervenção não poderia ser realizada na Estação, devendo ser realizada na rua. Diante da nossa recusa, ela, aos berros, nos ameaça novamente com o não pagamento.
Demos prosseguimento à ação – conforme programação do próprio FIT e plano de ocupação traçado e comunicado à produção do evento – e chegamos à estação Minas Shopping, onde um aglomerado de pessoas aguardava. Como o FIT não havia comunicado à chefia do Metrô a realização do evento, nem havia solicitado a liberação para uso do espaço, começamos a ser pressionadas, por funcionários da CBTU, a nos retirar do local.
No melhor estilo Kafka, ao coro do metrô se juntaram os produtores do FIT que, eximindo-se da própria responsabilidade, pedem nossa retirada. Diante de nossa reiterada recusa, informam que estamos, então, por nossa própria conta e risco.
Sob clima tenso, a intervenção prossegue até ser interrompida por um funcionário da CBTU. Com o protesto do público presente, a confusão se instala e exigimos, então, um esclarecimento por parte da produção. A produção alega que NÓS não temos autorização para realizar a intervenção no lugar, esquecendo-se de que a LIBERAÇÃO DO ESPAÇO constante na programação é RESPONSABILIDADE do FIT. Diante da evidente incompetência, irresponsabilidade e despreparo da organização do evento, o público se junta às performers numa ação de intervenção pela cultura de BH, deitando-se no chão e deixando as marcas de seus corpos e os escritos de seus protestos marcados a giz.
Ao final de tudo, com o circo armado e os fatos escancarados, recebemos, finalmente, um comunicado da FMC que, agora, se digna a falar conosco: a coordenadora Solanda oferece, entre pedidos de desculpas e esperanças de que não fiquemos tristes com o Festival, uma nova apresentação para sanar nossos transtornos.
Não, FMC. Não queremos panos quentes nem douração de pílulas. Mais do que “tristes com o FIT” estamos INDIGNADOS. Não queremos uma apresentação extra, quando tínhamos três em que poderíamos realizar perfeitamente o nosso trabalho.
QUEREMOS RESPEITO, DIÁLOGO, CONSIDERAÇÃO. QUEREMOS SEMINÁRIO DE AVALIAÇÃO NÃO SÓ DO FIT, MAS DAS POLÍTICAS CULTURAIS IMPLEMENTADAS POR ESSA GESTÃO. E, por último, queremos lembrar que não há luta sem ranger de dentes. Lembrar que as pessoas não sorriem quando estão sendo massacradas, desrespeitadas, manipuladas. Elas gritam, elas berram, elas lutam bravamente. Não esperem de nós atitudes menos combativas.
Fraternalmente,
Obscena
Agrupamento Independente de Pesquisa Cênica