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sábado, 27 de setembro de 2014

espaço do silêncio III

Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas.
Mulher princesa. Mulher boneca. Mulher rosa. Doce. Dócil. Mulher muda. Mulher pra usar. Mulher pra casar. Mulher de cama e mesa. Mulher sobremesa. Mulher melancia, jaca, melão. Mulher Filé: "Chega de fruta. Homem gosta é de comer carne". Mulher da vida. Meretriz. Mulher da rua. Meretriz. Mulher da zona. Meretriz. Mulher à toa. Meretriz. Mulher da comédia. Meretriz. Mulher. Meretriz. Mulher. Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você. 
Mulher, uma obra em construção: Sorriso. Batom Boca Beijo. Hidratante. Sutiã. Escova Progressiva Inteligente. Cabelo Longo. Depilação a laser. Lisinha. Cheirosa. 100% completa. Pronta para consumo imediato. Peito. Bunda. Coxa. A cada ano são feitas 629 mil plásticas no Brasil. Silicone. Drenagem linfática. Jet bronze. Botox. Endermologia com Arte. Lipo-Aspiração mata. Diet. Light. In. Out. Gorda. Feia. Jogada fora. Pros cachorros. Na lagoa. No lixo.
A gente pensa que é mulher e é só fêmea, bichinho de estimação. Princesa. Gatinha. Filé. Gostosa. Cachorra. Galinha. Vaca. Piranha. Engulo tudo sem frescura. Amar. Agradar. Aceitar. Transar. Mesmo sem vontade. Sujeitar. Sorrir. Servir bem para servir sempre. Amar. Apanhar. Compreender. Perdoar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Morrer. Mesmo sem vontade.
Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você.
Todos os dias. Todos os dias, mulheres são destruídas.
A cada 2 segundos, uma boneca Barbie é vendida em alguma parte do mundo. A cada 12 segundos, uma mulher de verdade é violentada. Sthefany, 18 aninhos. Loirinha e sapeca como você gosta. Adoro beijar. Mesmo sem vontade. Sarada. Turbinada. Siliconada. Preparada. Como você gosta. Drogada. Bêbada. Abusada. Estuprada. Envergonhada. Excomungada. Culpada. Culpada. Culpada.
Como você gosta?

Ela tava pedindo. Ela tava merecendo.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

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eu aborto.
tu abortas.
somos todas clandestinas.
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quarta-feira, 21 de maio de 2014

Espaço do silêncio II - ELLA(s): a escrita

Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas.
Mulher princesa. Mulher boneca. mulher dócil muda. mulher rosa. mulher doce. Mulher sobremesa. Mulher de cama e mesa. Mulher para desfrute. Mulher melancia, jaca, melão. Mulher Filé: "Chega de fruta. Homem gosta é de comer carne". Mulher da vida. Meretriz. Mulher à toa. Meretriz. Mulher da rua. Meretriz. Mulher da zona. Meretriz. Mulher. Meretriz. Mulher. Meretriz. Mulher: uma obra em construção.
Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você. Sorriso. Boca Beijo Batom. Depiladores hidratantes sutiãs rolinhos pregadores talheres gleidy sache vassoura escova progressiva inteligente. A cada ano, no Brasil, são feitas 629 mil plásticas. Silicone. Lipo-Aspiração mata. Peito. Bunda. Coxa. Como você gosta. Drenagem linfática. Jet bronze. Botox. Diet. Light. In. Out. A gente pensa que é mulher e é só fêmea, bichinho de estimação. Gatinha. Cachorra, cadela. Vaca, galinha, piranha. Filé. Gostosa. Quente. Pronta para consumo imediato. 100% completa. Mulher. Ser humano do sexo feminino capaz de conceber e gerar outro ser humano e que se distingue do homem por essa característica. Mulher, parcela da humanidade. A mulher em relação ao marido. Esposa. Amar. Casar. Cuidar. Lavar. Passar. Sujeitar. Agradar. Transar. Mesmo sem vontade. Sorrir. Servir bem para servir sempre. Amar. Parir. Padecer. Amar. Sacrificar. Mãe Amar. Amamentar. Limpar. Jogar fora. No rio, na lagoa. Apanhar. Compreender. Perdoar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Apanhar. Apanhar. Morrer. Mesmo sem vontade.
Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você.
Todos os dias. Todos os dias, mulheres são construídas.
A cada 2 segundos, uma boneca Barbie é vendida em alguma parte do mundo. A cada 15 segundos, uma mulher é espancada no Brasil. Samy, 18 aninhos. Loirinha e sapeca como você gosta. Adoro beijar. Mesmo sem vontade. Sarada. Turbinada. Siliconada. Preparada. Espancada. Excomungada. Esquartejada. Jogada pros cachorros. na rodovia. na lagoa. na lixeira. Morta. Como você gosta. Destruir. Matar. Aniquilar. Dar cabo de.
Ex-terminar. Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são destruídas. 70% das mulheres mortas no país são vítimas de seus namorados, noivos, maridos. Eliza, 24 anos, esquartejada e jogada para os cachorros a mando do ex-amante e pai de seu filho. Leonice, 40 anos, 13 facadas, ex-companheiro. Maria Islaine, 31 anos, ex-marido. Ele apontou a arma para ela e atirou 7 vezes, sem que ela reagisse. Maria de Jesus, 28 anos, 3 tiros, ex-marido. Luciene, 24 anos, 2 tiros, ex-namorado. Polyana, 23 anos, 18 facadas, ex-marido. Eloá, 15 anos, ex-namorado: morta com 1 tiro na cabeça, sem que ninguém reagisse. Janine, 16 anos, grávida de 8 meses, morta pelo namorado com pelo menos 42 facadas, sem que ela eu você. sem que ninguém reagisse.

espaço do silêncio II - ELLA(s): impressões


espaço do silêncio > praça 7
fluxo vertiginoso de pessoas.
estendo o lençol cravado de cruzes vermelhas. isso chama atenção.
a cruz vermelha em minha boca impõe um silêncio sem explicação.
um inventário de mulheres mortas. destruir. aniquilar. dar cabo de. ex-terminar.
um rapaz lê.
uma mulher lê.
sua comoção co-move-me.
e nos encontramos lá. nessa comoção além das palavras (das muitas palavras impressas no papel).
quero me juntar a você, ela diz. não agora.
ofereço minha escrita. meu telefone. meu nome. ela vai me procurar. ela vai me procurar?
espaço do silêncio > praça da estação
bancos. jardins. estátuas. (rastros da ação de outro dia: dançar é uma revolução)
aqui tudo tem forma e sentido.
pessoas atravessam os quadrados.
as palavras rastros soltas pelo espaço compõem um quadro com meu corpo. o seu antônio diz:
bonito isso que você faz. te vi aqui dançando outro dia. um pano branco. era bonito.
eu agradeço e cerro minha boca com a cruz, mas não antes de responder:
essa ação? chamo de espaço do silêncio.
(apesar de achar que, às vezes, o texto no papel fala demais).

quinta-feira, 6 de março de 2014

manifesto pessoal

EU, NINA CAETANO, DECLARO QUE, A PARTIR DE HOJE, 
MEU CORPO É SOMENTE M(EU).
EU NÃO PERTENÇO A NINGUÉM.
A NINGUÉM NADA DEVO. NEM OBEDIÊNCIA. NEM SATISFAÇÃO.
EU SOU MINHA.
E NÃO DE QUEM QUISER.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

dancemos, dancemos tod@s, senão, estaremos perdid@s!

é engraçado que, ao parafrasear pina para fazer meu título e falar de uma condição hoje vital para mim, defrontei-me também com a marcação de gênero. e com a percepção do modo como estas duas questões - a dança e o feminismo - estão, a meu ver, em muitos momentos do meu trabalho, misturadas... explico.
sábado, dia 27 de abril, participei da performance de rua "dançar é uma revolução!". essa ação, organizada por um coletivo (não-organizado) de mulheres, pretende-se mensal e itinerante. a idéia é que, no último sábado de cada mês, mulheres se reúnam, em alguma praça de belo horizonte, para dançar contra a violência.
na primeira vez que fizemos, foi como uma resposta ao convite do one billion rising, evento de ordem mundial que tem a seguinte chamada (aqui em versão livre): "uma em cada três mulheres será agredida durante toda a sua vida. 1 bilhão de mulheres agredidas é uma atrocidade. 1 bilhão de mulheres dançando é uma revolução". lembro-me que o dia marcado para acontecer a ação, no mundo, havia sido 14 de fevereiro. no entanto, em várias cidades do brasil a coisa estaria acontecendo no sábado, dia16.
foi legal observar isso porque, ao receber um convite de uma amiga de londrina, pelo face, para participar da ação no dia 14, ou seja, para dançar em qualquer lugar, em minha cidade, pensei que seria interessante fazer isso coletivamente (acredito muito que pelas experiências anteriores do obscena com a marcha mundial das mulheres e com outras performers feministas com quem dialogamos sempre, experiências sempre muito produtivas, do ponta de vista político e estético) e, como estava muito em cima da hora para fazer na quinta, acabei chamando esses grupo de mulheres parceiras, colaboradoras, a desenhar, para o sábado 16,  uma dança/ação coletiva na praça 7, lugar tradicional de protesto na cidade.
partimos de alguns elementos já desenvolvidos pelo obscena - como a idéia de dançar cada uma a sua música, com fones de ouvido, como na ação performática festa no metrô - e de outros, que surgiram de símbolos do movimento feminista, como a cor roxa para nos vestirmos; ou das ações individuais, como a escrita a giz no chão - que desenvolvo em minhas ações desde 2008 - ou o cartaz da resistência negra, empunhada por luana tolentino.

e assim fizemos: de roxo e branco, cada uma com um set musical diferente, que escutava em seus fones de ouvido, dançamos juntas, na praça: eu, joyce malta, lissandra guimarães, clarissa alcantara, flavia fantini, debora fantini, hozana passos, luana tolentino, romênia reis, raquel medeiros, leticia castilho, thálita mota, kristoff silva, áurea carolina, scheylla bacelar... 
ah, foi bom. ver uma mulher que passou por ali, parar e dançar conosco, porque "já apanhou muito e agora não apanha mais. nunca mais".foi bom dialogar com a cidade a partir do corpo e do giz. misturar, à minha dança, e à dança das outras, palavras que falavam da gente e da situação contra a qual lutamos diariamente e em razão da qual estávamos ali.
daí, a partir desse dia, uma de nós, letícia castilho falou: não seria ótimo se a gente dançasse toda semana, até as pessoas começarem a falar "ó, ali estão aquelas mulheres que dançam contra a violência..."?
achei essa idéia tão linda. levei tão a sério, que resolvi propor um grupo no facebook para organizarmos essa ação. senão semanal, como se mostrou inviável, pelo menos mensal. e uma questão para mim era: como torná-la mais marcante, inclusive para nós?
no mês seguinte era março e resolvemos fazer a ação no dia internacional das mulheres. por um lado, foi muito interessante a integração à marcha e desenvolvê-la junto com o obscena. por outro, a ação, em si, perdeu a força, diluiu-se em uma massa que, por sua vez - o que foi ótimo! - ganhou força nessa junção coletiva, como também ganhou força os corpos que traziam representações individuais - do véu muçulmano ao corpo machucado - em performances que ocorriam a todo momento.

foto: Matheus Silva


agora, em abril, optamos em dançar na praça da rodoviária e dancei com o corpo escrito, dancei com várias palavras de ordem em meu corpo, desde "não é não" e "meu corpo, minhas regras" até "dançar é uma revolução", ou com dados concretos, como aquele da chamada: "1 a cada 3 mulheres será agredida" ou a estatística brasileira, "10 mulheres mortas por dia". e, para mim, a ação, feita assim, foi bem reveladora!

 Foto: Nina Caetano


a dança se revelando quando, com a escrita no corpo, as palavras também sugeriam movimentos, para serem vistas. para serem lidas. foi uma experiência bem interessante, principalmente ao pensar que ela vem de uma trajetória de ações investigadas dentro do obscena, de experimentos que lidam com aquilo que tenho chamado de escrita performada: a escrita no calor da ação performativa.
vejo isso desde baby dolls, com as primeiras escritas a giz no chão (na verdade, vejo antes: desde a vitrine dos corpos prostituídos, proposta por marcelo rocco, ainda no teatro marília, em 2008) até espaço disponível, anuncie aqui, intervenção realizada pelo obscena no evento corpolítico, em março de 2013, passando pelas mulheres painel, experimentadas em diálogo por lissandra guimarães e por mim junto a outras mulheres, como, por exemplo, na ação performática 25 de novembro... nela, é evidente também os rastros de ações lúdicas, como a já citada festa no metrô...
por outro lado, vem se intensificando, cada vez mais, a relação com a dança. dentro do processo das ondas, um material que vinha me instigando dizia respeito à jinny, talvez a personagem mais corpo de virginia, e eu já havia até brincado com a idéia de uma dança de palavras e de tecer um tango com elas - clarissa já havia até feito uma primeira versão musicada disso... e, recentemente, fred caiafa propôs trabalhar também a partir da dança, do que ele está chamando de uma dança de afetações.
com o interesse cada vez mais nítido de levar as ondas para as ruas, resolvemos, então, eu e ele, sair - e para isso chamamos joyce, em primeiro lugar, para dialogar conosco a partir de seus materiais sonoros e performáticos, e também todos os demais, incluindo clóvis, que não está nas ondas, mas está - para uma deriva dançada pelo centro da cidade. essa deriva tinha o intuito de traçar um mapa psico-geográfico-corporal, uma corpografia das luzes e sombras da cidade.
fomos eu, fred, joyce, clóvis e leandro. nos encontramos às sete, na praça da estação, e rumamos em direção ao viaduto de santa tereza, pela andradas. joyce, com o gravador, captava nossas vozes e os sons do centro nervoso. nós todos nos lançamos em distintas experiências.
eu parti em busca da sombra. e como era múltipla e tênue! como a cidade é iluminada! ou, como disse clóvis, ensolarada... além da sombra, uma frase me guiava: estou coberta por carne quente. como as palavras escritas no corpo, no outro dia, essas palavras inscritas na pele guiavam meu movimento. em diálogo com as sombras. e com as luzes que passavam.
quando chegamos embaixo do viaduto de santa tereza, a configuração do trabalho se alterou. se antes, o movimento era de ordem bem individual, ali ganhou uma dimensão mais coletiva. trabalhávamos em um mesmo fluxo de ações. recuperamos movimentos já improvisados nas ondas. ensaiamos dançar com a arquitetura e com os passantes. ações surgiam fugazes, como o prolongado aplauso aos usuários de um ônibus que parara no sinal fechado.
da próxima vez, quero experimentar o giz.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Rhoda Collage

Agora, estamos a salvo. Agora, nous pouvons voltar a nos endireitar. Agora, nous pouvons estender les bras no meio desta vegetação tão alta, dans ce vaste bois.
Não ouço nada.
– Agora vous voulez se afastar de mim, você e suas frases. Agora, vous voilà! me puxa a saia, olha para trás e constrói mais frases. 
Je vais placer ici une tête de pois de senteur, je vais colocar um farol aqui. Agora, vou embalar a minha taça d´argent d´un coté à l´autre para que os meus navios possam cavalgar as ondas. Quelques-uns vão se afundar. D´autres vont se briser contra os rochedos.
Mas há um que navega sozinho. C´est le mien, celui-là.
Le choeur nocturne a commencé. des chiens, rodas, des hommes que gritam, des cloches qui sonnent. O começo de um cântico.
Visto a roupa de dormir e je me couche por baixo deste fino lençol qui flotte dans la clarté diffuse.  Estou coberta por carne quente.
Contudo, sei que vou esticar os pés para que possam toucher na barra de ferro da cama; En touchant le barreau de fer, je constate la présence rassurante de quelque chose de... sólido.
Agora, já não posso afundar; agora, já não posso cair complètement à travers le lençol. Agora, estendo mon corps nesse frêle colchão et je plane suspendue. Je suis au-dessus de la terre. Já não estou de pé, já não podem me derrubar ou me ferir.
É melhor sair destas águas. Mais les vagues elas amontoam-se à minha volta, elles me roulent por entre leurs larges épaules; fazem-me virar; fazem-me tombar; je suis estendida parmi ces longues lumières, nestas ondas enormes, nestes caminhos sem fim.




Jinny


Tomo consciência deste mundo. Parmi les êtres femmes vertes, roses, perles-grises, sont les corps droits des hommes. Ils sont blanc et noir ; semblent un secret, tellement encaixados assim em suas roupas. Volto a ver a imagem de um túnel refletida na janela. En mouvement. Moi, j´avance e as figuras pretas e brancas daqueles homens desconhecidos miram-me. Suas mãos esvoaçam até as gravatas. Tocam coletes, bolsos, lenços. Ils sont très jeunes et ils sont ansiosos por causar boa impressão. Sinto brotar em mim milhares de possibilidades. Je suis brejeira, gaie. Mais oui também sou languissante, melancólica...



Apesar de enraizada, j´ondoie. Penchée à droit, toda dourada, je dis à un homem: “Viens”. Puis, ondulando nas sombras, eu digo a outro: “Non”. Há um que se afasta do grupo. Ele sai de sua imobilidade. Il approche.  Il vient em minha direção. C´est le moment le plus excitant que eu já vivi. Je frémis, j´ondule. J´ondoie comme une plante flottant dans la rivière, deslizando ora nessa direção, ora em outra... mas sob a superfície da água, solidamente enraizada: pois só assim ele poderá vir ao meu encontro, sem medo que a corrente me leve...
“Viens”, digo, “viens”. E ele pálido, de cabelos escuros, romântico, melancólico. Pour lui, eu me mostro brejeira, volúvel, caprichosa, justamente porque ele é romântico, melancólico. E está aqui, ao meu lado.
Agora, com um ligeiro puxão, sou arrebatada: sou levada para longe, junto com ele. Uma douce courant nos emporte. Saímos e entramos ao som desta música hesitante. Corpos rochedos interrompem a torrente de dança. Elle s´agit, estremece. Nossos corpos, forte o dele, fluido o meu, ils sont pressionés, um contra o outro, dentro do corpo cercle parfait dessa dança. Ah, ela nos embala, em suas dobras sinuosas, d´un coté a l´autre. A música para, de repente.
Apesar disso, o meu sangue continua a correr. 

estou coberta por carne quente


O beijo


Próximos daqui, Bernard, Neville, Jinny e Susan (mas não Rhoda) afagam os canteiros com as suas redes. Caçam as borboletas que pousam nas flores. Varrem a superfície do mundo. As redes estão cheias de asas esvoaçantes. “Louis! Louis! Louis!”, eles gritam. Mas não podem me ver. Estou do outro lado da sebe. Entre as folhas existem apenas diminutos orifícios para espreitar. Oh, Deus, fazei com que passem! Fazei com que deponham suas borboletas sobre um lenço no chão. Fazei com que contem as suas borboletas com manchas pretas e amarelas, as suas vanessas e borboletas-da-couve, mas que não me vejam. Sou verde como um teixo à sombra da sebe. Estou enraizado no centro da Terra. O meu corpo é um caule. Espremo o caule. Uma gota poreja na cavidade da boca, vagarosa, densa, e, aos poucos, vai-se tornando maior, cada vez maior. Agora, qualquer coisa cor-de-rosa passa pelo orifício. Agora, o raio de luz de um olho desliza pela fenda. A luz que dele emana incide sobre mim. Sou um menino num traje de flanela cinza. Ela me encontrou. Um toque na nuca. Beija-me. Tudo se desmorona.
Eu corria depois do café – disse Jinny. – Vi folhas que se mexiam num buraco na sebe. Pensei: “É um pássaro em seu ninho”. Afastei os ramos e olhei, mas não vi pássaro nem ninho. As folhas continuavam a mover-se. Fiquei assustada. Passei correndo por Susan, Rhoda, por Neville e Bernard, que conversavam no galpão. Enquanto corria, cada vez mais depressa, eu gritava. O que movia as folhas? O que move meu coração, minhas pernas? Foi então que aqui cheguei e te vi, verde como um arbusto, como um ramo, muito quieto, Louis, com os olhos vítreos. “Estará morto?”, pensei, e te beijei. Por baixo do vestido-rosa, o meu coração saltava como as folhas que, sem nada que as faça mexer, não param de oscilar. Agora, sinto o aroma dos gerânios; agora o cheiro do húmus. Danço. Ondulo. Sou lançada sobre você como uma rede de luz. E deixo-me ficar deitada sobre você, tremendo.
Pela fresta na sebe, eu a vi beijando-o – disse Susan. – Ergui minha cabeça do vaso de flores e espreitei pela fenda da sebe. Vi-a beijando-o. Vi Jinny e Louis beijando-se. Agora, vou embrulhar minha angústia dentro do meu lenço. Vou amassá-la numa bola apertada. Antes das aulas, irei sozinha ao bosque das faias. Não ficarei sentada à mesa fazendo cálculos. Não vou sentar perto da Jinny e do Louis. Vou levar minha angústia e depositá-la nas raízes, sob as faias. Vou examiná-la, pegá-la entre meus dedos. Não me encontrarão. Comerei nozes e procurarei ovos em meio aos espinheiros, meu cabelo ficará emaranhado, e vou dormir sob as sebes, bebendo água das poças, e vou morrer lá.
Susan passou por nós – disse Bernard. – Passou pela porta do galpão com seu lenço todo amassado numa bola. Não chorava, mas seus olhos, tão bonitos, estavam apertados como os de um gato antes do pulo. Vou atrás dela, Neville. Vou atrás dela com todo o cuidado para estar a seu alcance, com meu interesse, para confortá-la quando toda aquela fúria explodir e ela pensar: “Estou sozinha”. Agora ela atravessa o campo com toda a calma, para nos enganar. Agora chega à encosta: pensa que ninguém a vê e começa a correr com os punhos cerrados. As unhas cravam-se na bola em que o lenço se transformou. Corre para o bosque das faias, para longe da luz. Quando chega, abre os braços e entra na sombra como se nadasse. Mas está cega depois de tanta luz, e acaba por tropeçar e cair junto às raízes das árvores, onde a luz aparece e desaparece, inspira e expira. Os ramos movem-se para cima e para baixo. Aqui, a agitação é muita. Há sombra e a luz é indecisa. Tudo está pleno de angústia. As raízes formam um esqueleto no solo, com folhas mortas amontoadas nos cantos. Susan espalhou sua angústia. Pousou o lenço nas raízes das faias e soluça, dobrada sobre si mesma no ponto onde caiu.

a luz azul passeia.


A luz azul passeia. Recorta uma paisagem enluarando. No quadrado de luz, recostam-se duas pessoas. Elas conversam e sorriem relaxadas, mas não as ouvimos. O homem na guitarra improvisa a sua melodia enquanto a mulher que observa folheia o livro. Ela diz:
(enquanto ela narra, pode-se alterar, se for desejável, a luz da paisagem, talvez dando a ela os tons luminosos do sol).
“O Sol ainda não nascera. O mar não se distinguia do céu, a não ser pelo encrespado que cortava sua superfície, como um tecido que se enrugasse. Aos poucos, à medida que o céu clareava, uma faixa escura estendeu-se no horizonte, dividindo o céu e o mar. Então, o tecido cinzento coloriu-se de manchas movendo-se uma após outra, junto à superfície, perseguindo-se mutuamente, sem parar.
(pode-se também jogar com a projeção de paisagens, talvez substituindo a luz pura, a partir de algum momento. Sugere-se uma sucessão de cores ondas árvores folhas raiosol)
Aproximando-se da praia, cada uma dessas ondas erguia-se, acumulando-se para então quebrar-se e espalhar pela areia um fino véu de água branca. A onda parava, e partia novamente, suspirando como uma criatura adormecida, cuja respiração vai e vem sem que disso se aperceba. Aos poucos, a faixa escura do horizonte acabou por clarear, tal como se a borra numa velha garrafa de vinho se tivesse acomodado, restituindo à garrafa a sua cor verde. Atrás dela, também o céu ficou translúcido, como se os sedimentos brancos que ali se encontravam tivessem afundado, ou como se um braço de mulher oculto por detrás da linha do horizonte tivesse erguido uma lâmpada que espalhasse, por todo o céu, raios de várias cores, branco, verde, amarelo, como se fossem as varetas de um leque. Então, ela levantou ainda mais o lampião, e o ar pareceu tornar-se fibroso e apartar-se daquela superfície verde, bruxuleando e chamejando em flamas vermelhas e amarelas, como às que se elevam de uma fogueira. Docemente, as fibras da fogueira fundiram-se numa só brasa, uma incandescência que levantou o peso do céu cor de chumbo que a cobria, transformando-o num milhão de átomos de um macio azul. Docemente, transluziu a superfície do mar, e as ondas ali se deixaram ficar, murmurando e brilhando, até que as faixas escuras quase desapareceram. Docemente, o braço que segurava a lanterna elevou-se ainda mais, até uma chama brilhante se tornar visível; um disco de fogo ardendo na fímbria do horizonte, acendendo o mar inteiro em ouro.
A luz incidiu sobre as árvores no jardim, tornando, primeiro, esta folha transparente, e só depois aquela. Lá no alto, um trinado de pássaro. Depois pausa. E logo abaixo, outra ave soltou seu gorjeio. O sol aguçou os contornos da casa e pousou como ponta de um leque sobre uma cortina branca do quarto de dormir, deixando ali uma impressão digital azulada. A cortina estremeceu ligeiramente, mas, dentro da casa, tudo era penumbroso e sem substância. Fora, os pássaros cantavam uma melodia sem sentido.           

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Exercício para um teatro que virá




Agora, estamos a salvo. Já nos podemos voltar a endireitar. Já podemos estender os braços no meio desta vegetação tão alta, no meio deste bosque tão grande.
Não ouça nada.
– Estás-te a afastar, tu e as tuas frases. Agora, puxas-me a saia, olhas para trás e constróis mais frases. 
Vou colocar um farol aqui. Agora, vou embalar a minha taça castanha de um lado para o outro para que os meus navios possam cavalgar as ondas. Alguns afundar-se-ão. Outros despedaçar-se-ão contra os rochedos.
Mas há um que navega sozinho. É o que é verdadeiramente meu.
...
Estou coberta por carne quente.
Aperto o pijama e deito-me por baixo deste fino lençol, flutuando numa luz pálida. 
O começo de um cântico. rodas, cães, homens a gritar, sinos de igreja. o começo de um um cântico.
- No momento em que dobro o vestido, ponho de parte o desejo.
Contudo, sei que vou esticar os pés para que possam tocar na barra da cama; quando a tocar, ficarei mais segura por sentir qualquer coisa de sólido.
Agora, já não me posso afundar, agora, já não posso cair através do lençol. Agora, estendo o corpo neste frágil colchão e fico suspensa. Estou por cima da terra. Já não estou de pé, já não me podem derrubar nem estragar.
É melhor sair destas águas. Mas elas amontoam-se à minha volta, arrastam-se por entre os seus grandes ombros; fazem-me virar; fazem-me tombar; fazem-me estender por entre estas luzes esguias, estas ondas enormes, estes caminhos sem fim.

(apropriando-me de as ondas, de virginia woolf: cortes, colagens, transformações)

‎"eu quero poder falar com vida, sem que a palavra pareça... folha? falsa? fraca?"


Uma douce courant... interrompe. 
belo tango. ações corporais. 
Fred e Lica giram numa quasedança. 
Leandro e Saulo compõem com Wagner um só animal. ele bate palmas. 
a dramaturga escreve, sob a luz da lanterna. faz parte da cena? 
gritos gorgolejos da música lembram à Lica as mulheres galinhas de strange fish. ela dança as mulheres com Saulo em um salão de baile cheio de corpos. 
Clarissa examina Matheus. Depois examina Admar. Ela examina rostos em meio à dança.
 Why? Why? Why? Uai! Uai... Why... É a palavra do corpo. O corpo é frase.


Ensaio das Ondas, ontem, dia 18.09.2012. na Gruta!

sexta-feira, 25 de março de 2011

classificação zoológica da mulher

Mulher vaca. Nome científico: femina docilis.

foto: nina caetano

Seu habitat natural é o lar, o ambiente doméstico. Adora passar, limpar, cozinhar e cuidar, mesmo sem vontade.O temperamento dócil das mulheres vacas associado à sua indiscutível utilidade econômica, fez da domesticação da espécie a mais antiga da história da civilização. Estima-se que já eram domesticadas pelos homens das cavernas.

Além da força de trabalho, esse animal é extremamente útil porque dele se aproveita tudo: você pode comer a carne e até arrancar o couro que a mulher vaca não reclama. Além disso, ela tem como qualidade a capacidade de tudo suportar, sem frescura. Carga, peso, culpa.

Cuidado! Não alimente com idéias, pode ser perigoso.



Mulher cachorra. Nome científico: femina vulgaris.

foto: nina caetano


Seu habitat natural é a rua, o bar, o baile funk. Normalmente tem hábito noturno, mas há espécies que funcionam dia e noite.

É um animal extremamente sociável, aceitando seu dono como chefe da matilha. Aliás, essa espécie precisa de dono para se sentir feliz.

Bastante utilizada como bichinho de estimação e enfeite de namorado, a mulher cachorra aceita bem a coleira, que usa como se fosse um colar de diamantes.

A mulher cachorra é relativamente dócil e leal. Se bem adestrada, ela lambe e até balança o rabinho. Mesmo sem vontade.

Para o adestramento, pode ser necessário o uso de tapinhas. Mas não se preocupe porque, para a verdadeira mulher cachorra, um tapinha não dói.

Cuidado! Não alimente com idéias, pode ser perigoso.

sábado, 19 de março de 2011

só muda de endereço



Coleção escritas performadas: só muda de endereço
(por nina caetano)
Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas. Mulher princesa. Mulher boneca. mulher dócil muda. mulher rosa. mulher doce. Mulher sobremesa. Mulher de cama e mesa. Mulher para desfrute. Mulher melancia, jaca, melão. Mulher Filé: "Chega de fruta. Homem gosta é de comer carne".
Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas. Sorriso. Batom Boca Beijo. Faca Tiro. Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são destruídas. 70% das mulheres mortas no país são vítimas de seus namorados, noivos, maridos. Amar. Casar. Cuidar. Compreender. Perdoar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Transar. Mesmo sem vontade. Morrer.
Mesmo sem vontade.
Mulher, uma obra em construção. Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você. Depiladores hidratantes sutiãs rolinhos pregadores talheres gleidy sache vassoura escova progressiva inteligente. Servir bem para servir sempre. Mulher. Ser humano do sexo feminino capaz de conceber e gerar outro ser humano e que se distingue do homem por essa característica. Mãe. A mulher em relação ao marido. Esposa. Plano de saúde, férias, filhos. Feia. Gorda. Jogada fora. Mulher, parcela da humanidade.
Mulher da vida. Meretriz. Mulher à toa. Meretriz. Mulher da rua. Meretriz. Mulher da zona. Meretriz. Mulher da comédia. Meretriz. Mulher. Meretriz.
Engulo tudo sem frescura.
A gente pensa que é mulher e é só fêmea, bichinho de estimação. Gatinha. Cachorra, cadela. Vaca, galinha, piranha. Filé. Gostosa. Quente. Pronta para consumo imediato. 100% completa. Samy, 18 aninhos. Loirinha e sapeca como você gosta. Adoro beijar. Mesmo sem vontade.
A cada 2 segundos, uma boneca Barbie é vendida em alguma parte do mundo. A cada 15 segundos, uma mulher é espancada no Brasil. Como você gosta. A cada ano, No Brasil, são feitas 629 mil plásticas. Silicone. Lipoaspiração. Peito. Bunda. Coxa. Como você gosta. Drenagem linfática. Jet bronze. Botox. Diet. Light. In. Out. Enterrada menina de 14 anos encontrada morta e estuprada. Arregaçada. Como você gosta.
Engulo tudo, sem frescura.
Sarada. Turbinada. Siliconada. Preparada. Espancada. Excomungada. Esquartejada. Jogada pros cachorros. na rodovia. na lagoa. na lixeira. Morta. Como você gosta.
Destruir. Matar. Aniquilar. Dar cabo de. Ex-terminar.
Eliza, 24 anos, esquartejada e jogada para os cachorros a mando do ex-amante e pai de seu filho. Leonice, 40 anos, 13 facadas, ex-companheiro. Maria Islaine, 31 anos, ex-marido. Ele apontou a arma para ela e atirou 7 vezes, sem que ela reagisse. Maria de Jesus, 28 anos, 3 tiros, ex-marido. Luciene, 24 anos, 2 tiros, ex-namorado. Polyana, 23 anos, 18 facadas, ex-marido. Eloá, 15 anos, ex-namorado: morta com 1 tiro na cabeça, sem que ninguém reagisse. Janine, 16 anos, grávida de 8 meses, morta pelo namorado com pelo menos 42 facadas, sem que ela eu você. sem que ninguém reagisse.
Amar. Sacrificar. Padecer. Parir. Amar. Amamentar. Cuidar. Limpar. Amar. Jogar fora. É tudo igual, só muda de endereço.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

mulher obra

a dramaturga vai escrever e apagar, continuamente.

Linhas gerais temáticas:

Experimento inacabado número Um. Quem é a obra de quem? Mulher: uma obra em construção. Desculpe-nos o transtorno. Estamos trabalhando para você. Não é possível explicar, é necessário construir.

Dentro da vitrine, as atrizes preparam seus objetos. Fora dali, do lado de fora, a cidade. Igreja, hospital. Os transeuntes. São sete horas da noite e estamos na avenida Alfredo Balena.

Inventário de tarefas inúteis. Parir. Limpar. Amamentar. Trocar. Compreender. Amar. Sujeitar. Sacrificar. Lavar. Passar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Perdoar. Aquecer. Embalar. Beijar. Lamber. Chupar. Dar de mamar. Transar. Mesmo sem vontade.
Rolinhos pregadores talhares bicos de mamadeira chupeta fralda peneira vassoura escova botão linha tampa bombril perfex avental sutiã calcinha meias batons potes hidratantes depiladores
Moda revista filhos corpo receita sexo beleza corte cabelo cor unha esmalte batom inverno verão diet light in out baby sitter babá empregada carro seguro colégio celulite flacidez plástica estética beleza jet bronze limpeza de pele completa eletrólise depilação de última geração massagem redutora massagem relaxante drenagem linfática vácuo com endermologia e arte. Sutiã filhos planos de saúde marido férias feia feia. Feia. Gorda. Velha. Usada. Jogada fora.