quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Espaço do Silêncio: in memoriam

Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas.
Mulher princesa. Mulher rosa. Mulher de cama e mesa. Mulher sobre-mesa. Mulher doce dócil muda. Morta. Mulher, uma obra em construção: Sorriso. Batom Boca Beijo. Depiladores hidratantes sutiãs veja multiuso escova progressiva inteligente. Silicone. Peito. Bunda. Coxa. 100% completa. Como você gosta. Pronta para consumo imediato. Sarada. Turbinada. Preparada. Plastificada. Espancada. Esquartejada. Morta. Jogada pros cachorros. na lagoa. no lixo. Como você gosta?
Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você.
Mulher. Ser humano do sexo feminino capaz de conceber e gerar outros seres humanos e que se distingue do homem por essa característica. A mulher em relação ao marido. Esposa. Casar. Amar e respeitar até que a morte os separe. Cuidar. Limpar. Lavar. Passar. Sujeitar. Sorrir. Seduzir. Servir bem para servir sempre. Agradar. Transar. Mesmo sem vontade. Mesmo sem vontade apanhar. Amar. Compreender. Apanhar. Amar. Perdoar. Apanhar. Amar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Morrer. Mesmo sem vontade.
Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são destruídas. Destruir. Dar cabo de. Aniquilar. Ex-terminar. A cada 90 minutos, uma mulher é assassinada no Brasil. 70% das mulheres mortas no país são vítimas de seus (ex) namorados, noivos, maridos. 10% desses homens são agentes da segurança pública. Amar e proteger.
Conceição de Maria, 43 anos. Morta a socos pelo marido, policial militar reformado. Osailda, 45 anos, morta por envenenamento. O marido segue em liberdade, assim como o assassino de Débora Souza, 20 anos, atendente do Maria Bonita de Ouro Preto. Fernanda Sante Limeira, 35 anos, ex-marido. Ele apontou a arma e atirou 4 vezes, sem que ela pudesse reagir. Em Corinto, cidade em que minha mãe foi sistematicamente espancada pelo meu pai sem que ninguém metesse a colher, Júlia, uma senhora de 80 anos, foi morta pelo marido. Aqui, em Ouro Preto, Amanda Linhares, 17 anos, foi ex-terminada pelo ex-namorado, delegado de polícia da cidade. No Sul, Natália, 16 anos, grávida de 3 meses, foi morta pelo namorado com pelo menos 80 facadas, sem que ela eu você. sem que ninguém reagisse.

sábado, 30 de julho de 2016

sem juízo (um diálogo com lissandra guimarães, galeano, brecht e antônio apolinário)

sem juízo

(No alto da torre, o olho vigia as celas. No quadrado das horas, Ela).

JUIZA – Eu ficaria muito grata se você, antes do início da sessão, me fizesse um pequeno relato sobre o caso.

(Barulho de celular. Alguém fala “alô!”).

ELA – O despertador toca. 06:15 da manhã. Vai começar tudo de novo! Ela abre o olho. Levanta-se. A roupa está pendurada na cadeira. Desde a noite anterior. Estava tudo organizado. A blusa branca. De botões. O sapato preto. Tudo organizado.

JUIZA – Tudo isso está nos autos. Gostaria que detalhasse mais claramente os motivos da ocorrência.

ELA – Sempre pegava o metrô às 07:30. Sempre. Mas hoje alguma coisa saiu errada. Alguma coisa aconteceu. Entre as 06:15, quando despertou, e o momento em que devia pegar o metrô. Eu preciso fumar um cigarro. Digo, ela. Ela.

JUIZA – Aceita um charuto Brasil?

ELA – Ela vai começar do jeitinho que ela começou. Sabia que podia fazer de maneira organizada. Tudo daria certo.

JUIZA – Estou disposta a pesar todos os lados da questão. Os fatos. Não histórias!

ELA – Sempre pegava o metrô às 07:30. Sempre. Descia do metrô. Atravessava a rua. Tomava um café na lanchonete da esquina. Fumava um cigarro. E batia o cartão. Às oito e ponto. Às 06:30 ela acaba o banho. Coloca a roupa. Passa o batom. Nem bonita nem feia. Secretária. Ela sempre quis ser linda. Ser modelo, atriz. Bailarina.

JUIZA – Isso não consta dos autos.

(Juíza esconde os papéis, livros, dentro da roupa. Eles caem, formando um pedestal sobre o qual ela parece uma estátua da justiça).

JUIZA – Lembre-se que está em um Tribunal de Justiça.

(Ela busca uma bacia e uma jarra com água e os arruma no espaço. Organiza e reorganiza).

ELA – Tudo tem que ser a mesma coisa. Tudo igual. Tudo em seus devidos lugares. Tudo em pratos limpos! Desde a noite anterior.
Eu já disse que ela era frígida?

JUIZA – Então confessa?

ELA – Tudo tem hora e lugar. O seu lugar. Cada coisa em seu lugar. Ela era do tipo frígida.

JUIZA – É fácil dizer isso. Mas eu tenho de pronunciar uma sentença. Então, vamos aos fatos: “Ainda pequena, foi dada de presente. Assim que aprendeu a caminhar. Um dia, sua avó foi visitá-la. Entrou, deu uma tremenda surra na neta e foi embora”. 

ELA (apontando para uma corda) – O que isso tem a ver com a história? Não é a mesma coisa, não era desse jeito! (desalentada) Não tinha a corda... Eu preciso fumar um cigarro. Digo, ela. Ela! Ela precisa fumar um cigarro!

JUIZA – Aceita um charuto Brasil?

(Toca o celular. Alguém diz: “Ei, acorda!”).

ELA – Era sem “acorda!”. Não é a mesma coisa! Não tinha acordo. Não é a mesma coisa. Um cigarro. Alguém me dá um cigarro?

JUIZA – De onde ela vai começar dessa vez?

ELA – Do começo. Vou começar do começo. Digo, vai começar. Ela vai começar tudo de novo!

(Som metálico, como de um cano passando em grades. Uma voz anuncia de tempos em tempos: 06:15! À medida que vai se intensificando, intensifica-se o som de barras de ferro).

ELA – Ela acorda sempre um segundo antes do despertador tocar. O despertador toca. 06:15 da manhã. Ela abre o olho. Digo, ele. Ele levanta-se. A roupa está pendurada na cadeira. Desde a noite anterior. Ele gosta de tudo organizado. A blusa branca. De botões. O sapato preto. Tudo organizado.

JUIZA – Para de dizer isso! Você parece uma vitrola!

(o som dos canos e o chamado – “06:15!” – cessam).

JUIZA – Vamos aos fatos.

ELA – Ela vai começar do jeitinho que ela começou. Digo, ele. Do jeitinho que ele começou. Sabia que podia fazer de maneira organizada. Tudo vai dar certo! Tudo vai dar certo! Tudo vai dar certo.

JUIZA – Hoje em dia, não é fácil saber onde está a justiça. Mas não se deixe intimidar. Não tenha medo. Lembre-se que está num tribunal de justiça.

(Juíza começa a enumerar, simultaneamente, os castigos).

ELA – Sempre pegava o metrô às 07:30. (Extorsão. Insulto) Ele. Sempre. (Ameaça) Descia do metrô. (Cascudo. Bofetada. Surra.) Ele atravessava a rua. (Açoite) Tomava um café na lanchonete da esquina. (O quarto escuro) E batia o cartão. Ele. (A ducha gelada. O jejum obrigatório) Às oito e ponto. (A comida obrigatória. A proibição de sair).
Às 06:30 ela acaba o banho. Digo, ele. (A proibição de se dizer o que se pensa) Ele coloca a roupa. Ele gosta de vermelho. (A proibição de fazer o que se sente) Ele machucou a boca na quina da cama. Digo, ela.

JUIZA – A humilhação pública. Esses são alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais na vida da família.
Os direitos humanos deviam começar em casa.

ELA - Ela machucou a boca na quina da cama. Vermelho. Ela adora passar batom. Ela não é bonita. Mas fica linda de batom.

JUIZA – Para que recebemos nossos salários? (em outro tom, de propaganda) Justiça: um direito de todos!
Mas voltemos aos fatos. Enquanto descia o rebenque, gritava: “Você não está apanhando por causa do que fez. Está apanhando por causa do que vai fazer!”.

ELA - Vermelho. Ela sorri um sorriso machucado. Puta. 

JUIZA – Então você confessa? Você sabe muito bem que se pode insultar alguém sem usar a voz. Basta um gesto.

ELA – Puta.

JUIZA – Não ponha cada palavra minha na balança! Eu sou um magistrado. Estou pronta a examinar minuciosamente todos os aspectos da questão, mas preciso ser informada sobre qual a decisão que atende os interesses mais altos! Eu sofro de hérnia, não posso ter problemas. Tenho família!
                                  
ELA – Ela entra no quarto. Cumprimenta a colega: “Obrigada pelas flores!”. Vai até o banheiro. Senta-se na privada e digita. Um belo texto. (VOZ: Puta! Piranha!).
     Um texto imaginário. (VOZ: Vadia!) Maravilhoso. (VOZ: Vagabunda!) Cheio de palavras que ninguém conhece. (VOZ: Vaca!)
     Volta ao quarto. Cumprimenta a moça do café. As folhas amarelas são requerimentos. As verdes vão para a contabilidade.

JUIZA – Por que me olha assim? Não sou acusada de coisa alguma! Estou disposta a tudo!

ELA – Ele devia ter tomado o metrô. Às 07:30.

JUIZA - Mas disso não consta uma só palavra na sua acusação.

ELA – Ela ainda não entrou na estação. Digo, ele. Ele. Ela está molhada. Ela se levanta. Ele. Ela está nua. Ele. Ele veste a roupa. Ele. Ele.
Que horas são? Que corda é essa, em sua mão?
São 07:30. Ela ainda não pegou o metrô.
Alguém pode me dar um cigarro? Um cigarro?


JUIZA – Como devo julgar? Como devo escolher? Como? Onde está a pasta com a acusação? Preciso dela. Preciso saber de quem é a culpa! Como posso saber? Como?

quarta-feira, 4 de maio de 2016

lente subjetiva

fico pensando onde está a virtude. essa palavra já comprometida em sua etimologia. pois pressupõe-se masculina. se a virtude pressupõe-se do sujeito, do eu, quem sou esse eu? porque há várias vozes que falam aqui dentro. e fico pensando qual delas é meu eu de verdade. contraditórias, algumas julgam as outras. outras lutam muito para se fazer valer. umas eu até tento ajudar mas vejo que fracassam. não serão eu? ou serão justamente eu porque luto para ser? sou eu de fato aquilo que não consigo arrancar de mim?. ou essas são vozes que se cravaram em mim desde muito cedo? será a voz do Pai que fala em mim? seria essa a voz da virtude? aquele pensamento insidioso, sou eu? sou aquela que não quero ser? e que vejo saltar de mim?

terça-feira, 3 de maio de 2016

inevitável insólito intenso iridescente lume luminoso incêndio.
lânguida lenta lâmina lambe língua pele. lenta. lenta. leio.
em meio. mote. morte. mente. monte. montes. proliferam.
proliferam melenas. helenas. marias e outras. 

inevitável insólito intenso iridescente lume luminoso incêndio.
lânguida lenta lâmina lambe língua pele. lenta. lenta. leio.
em meio. mote. morte. mente. monte. montes. proliferam.








inevitável insólito intenso iridescente
lume luminoso incêndio.

lânguida lenta lâmina lambe língua pele.
lenta. lenta. leio.
em meio. mote. morte. mente. monta. montes. muda mundo. 
mudo mar.

muda amar.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

sem juízo I

Como uma mãe pode fazer isso? Dentro dela, o bebê fica ligado por um cordão umbilical. O bebê nasce ligado. Como ela pode jogar fora algo que ainda está dentro dela? Nenhuma mãe tem direito de esquecer que é mãe! Nem as que querem. Mulher: ser humano do sexo feminino capaz de conceber e gerar outros seres humanos e que se distingue do homem por essas características. Mãe. Ser égua parideira. vaca cadela cachorra gata galinha piu piu piu pintinho! desculpe a exaustão. Uma mãe não se cansa nunca. Eu só queria que ele calasse piu piu psiu psiu psiu Parto natural ou cesárea? Amamentar até pelo menos os seis meses. Formato par gênero condicional fêmea feminina. Limpar . Amamentar. Trocar. Compreender. Sacrificar. Padecer no Paraíso. Amar acima de tudo. de si mesma. Cuidar. Educar. Onde é que tá a mãe desse menino? Depois que sai de perto da gente, não tem mais garantia. Pode estragar a qualquer momento. Estragar tudo o que a gente fez, todo o sacrifício! E não tem como reclamar no procon. É tudo culpa da mãe! Todo mundo sabe disso. A mãe é culpada de tudo. Se ela escolhe tirar se escolher ter. Se come bem se come mal. Se for diabética, hipertensa, hipocondríaca gorda. se bebe se fuma um cigarrinho. Tinha hora que dava vontade de enfiar de volta no útero... Eu sei que é estranho falar isso. As mães têm medo de dizer as coisas. mas eu não. Minha vida sempre foi dura mesmo eu, eu tenho coragem de falar, e se eu tenho coragem de dizer as coisas, porque que eu não vou ter coragem de falar? o que eu penso.É isso. Tinha hora que eu ficava muito cansada. E só queria enfiar ele de volta no útero. Pra ele me deixar em paz.
Se não queria parir não devia ter aberto as pernas, vadia. Abortista, assassina. Lixo, escória da humanidade. Puta.
Mãe. Lavar . Passar. Embalar. Beijar. Aquecer. Dar de mamar. Ser vaca cadela cachorra gata galinha pintinhos piu piu piu desculpe a exaustão. Uma mãe não se cansa nunca. Eu só queria que ele psiu psiu psiu calasse que ele psiu psiu psiu dormisse.
trecho de Mãe de Papel, sem juízo I - estudos para um roteiro (improviso de Lissandra Guimarães e dramaturgia de Nina Caetano).

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

AMOLA-SE

No fundo da cena, soava o pregão distante.
Cada vez mais distante, soava no fundo do ouvido:
Amolador! (Dizia amolador e alongava cada vogal.) Amola faca alicate tesoura! Amola-a-dor...
O homem sentado no quarto, na beira da cama, discordava:
Nem precisa amolar a dor, que essa já corta afiada.
O homem perguntava:
De quantas facas preciso pra fatiar seu coração, hein? Pra deixá-lo em farrapo como o meu?
Com qual tesoura alicate punhal fatiar seu amor fingido pra poder comê-lo em pedaços?
Ele sentia o coração ficar quente quente no peito. E a cabeça quente quente. E o sangue ferver. Ele pensava que era amor, mas não era. Era raiva. Pensava que era o brilho cego de paixão. Mas era ódio e faca amolada.
Ela, o corpo estirado no chão, não respondeu. Agora ela sabia do ódio que ele tinha. O ódio que ela, mulher, já pressentia.
Ele insistiu:
Era isso que você queria, não era? Quem mandou me largar? Quem mandou me desprezar, me humilhar? Sou homem, não sou moleque não. Sou homem, você vai aprender.
Ela, o corpo estirado no chão, não respondeu. Parecia birra. Mas não era. Era boca rasgada, peito aberto e 42 facadas. Só por que ela não o amava, não o queria? Morta, ela pensava: o que ela queria mesmo era viver, era não ser obrigada.
Ele insistiu:
Se não vai mais ser minha, não vai ser de mais ninguém.
Ele nem pensou que podia deixar sua luz brilhar e ser muito tranquilo.
Deixar o seu amor viver e ser muito tranquilo.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

último

exatamente um ano depois ela reencontrou este homem. para uma despedida.
estranha simbologia das coisas.
exatamente um ano depois do primeiro cigarro juntos. do primeiro beijo. do primeiro gozo.
exatamente um ano depois da primeira noite que dormiram sem dormir.
exatamente um ano depois o último cigarro. o último beijo. o último gozo.
exatamente um ano depois a última noite que dormindo dormiram juntos.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

inunda


saudade da sua boca no meu corpo
da sua língua desenhando fogo
criando rotas
abrindo comportas
pra você entrar


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

69


querendo

você

sua boca

em mim

minha boca

em você

domingo, 21 de dezembro de 2014

testamento de fim de ano.

para meu filho deixo tudo o que tenho, exceto o que dele já é: jeito, pensamento, cara, vontade, inteligência. deixo educação. casa e sonhos não realizados. a gente sonha também pros filhos. deixo esperanças de vida. estas, deixo para trás.
deixo, espero, a lembrança de (bons) dias vividos. de pequenos momentos, das trocas diárias. do colo e do amor muito que senti. deixo todo o meu amor de mãe. (um pouquinho dele deixo pro meu sobrinho amado). 
te deixo, filho, meu amor pela vida. 
para meu filho deixo tudo o que tenho, exceto o que já é de outros. o amor dos amigos. os momentos de desejo. de luta. os frutos do trabalho compartilhado. 
para minha irmã deixo minha admiração eterna. e uma parte grande do meu amor que, engraçado, quanto mais distribuo, mais cresce. 
uma parte desse amor deixo pro meu sobrinho e afilhado querido. deixo, como disse, afeto de mãe.
para ravi-ssant deixo minha muita gratidão. por ter me ensinado que o amor pode mais. e o que pode o amor. por ter me ensinado tanto e tão bem. com intensidade e admiração. com tesão e respeito. com calma, luz e beleza. 
para ella, menina morena, a intensidade da descoberta. pra você, que me mostrou um mundo novo, meu eterno tesão. meu gozo sem fim. minha língua. meus dentes. 
para dijon, deixo meus vinis. deixo a música que me ensinou. o toque na pele. o balanço dos quadris.
para meus companheiros deixo a transgressão sempre viva. a diversão e a comida. a festa e a política. o erótico. para a leoa, em especial, parceria, fé e arte.
para outros, deixo o olho no olho. o riso. a palavra dura e a pele macia.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

coisas que me dão prazer.

línguas me dão prazer.
por favor... sí. un poquito más. así, así...
ah, sim, línguas dão prazer.
ah, mon amour, doucement... doucement, mon chérie
a palavra.
a palavra me dá prazer.
le mot.
le mot chão.
le mot móvel.
la parola. pois "eu só tenho a palavra".
palavra prazer.
palavra paladar.
palavra pele. suor. boca.
a palavra língua.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

coisas que sei fazer

sei rir muito. e dançar. sei gostar de música. de todo tipo. sei gostar de música quase sem preconceito. sei ser curiosa. sei ser sagaz. sei ser boba demais. sei limpar. lavar. passar. cozinhar. e sei desaprender a vontade de fazer tudo isso. sei desaprender sem culpa. sei sentir culpa. sei fazer yakisoba do bom. mas só pros amigos. quase não sei fazer pra namorado. depende muito. depende. sei gostar de café. e de boa comida. sei comer e elogiar. sei pedir pra fazer mais. sei ser conquistada por uma boa comida. sei fazer sexo. sei gostar de fazer sexo. sei pedir pra fazer mais. sei morder. lamber. sei chupar um homem. e uma mulher. sei ter vontade. sei fazer vontade. sei amar. mas raramente. já soube me casar, mas me esqueci. sei ter só um filho. sei ter filho amado. sei ser brava. sei ser dura. sei guardar mágoa e sei ser de lua. sei me apaixonar sempre. mas não sem medo. sei ser tímida. e espalhafatosa. sei entrar em pânico. sei entrar em risco. sei escrever texto na rua. sei ação. sei fazer sem autorização. sei ter problema com autoridade. sei gostar de pessoa. sei gostar de coisa também. até mais do que eu gostaria. sei falar muito. mais do que devia. sei ser excessivamente franca. sei ser indelicada. sei ser cruel. mas não gostar disso. sei gostar de ser debochada. sei gostar sem pudor. sei gostar de ser sem pudor. 
ah, sei gostar disso.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

nua.

ela havia prometido
instigar imaginações.
andaria nua pela casa quarto cozinha
sexo na cama. mesa.
chão. chuveiro.
o olho via curva. seio branco. tatuagem vermelha.
carne. bunda. coxa.
entremeio.
mete, ela disse.
a mão anca. espanca de leve. de leve meneia.
agita.
um mar. verão.
lua cheia.
mas o olho só vê que ela passeia
completamente nua.
completamente não.
ela calça chinela de dedo.

pele

a pele sua. cheira.
a pele gruda. anseia.
a pele nua.
a pele preta.
a pele branca pede.
pede língua.
boca. saliva. 
a pele inteira.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

primavera

pele peito pulsa
espera
espera.
espera
pousar na pele preta a língua.
primavera.

domingo, 19 de outubro de 2014

or-ação

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amem

amém

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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

hai kai II

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eu falo vagina
tu falo vagino
ela vagina fala
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sábado, 27 de setembro de 2014

espaço do silêncio III

Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas.
Mulher princesa. Mulher boneca. Mulher rosa. Doce. Dócil. Mulher muda. Mulher pra usar. Mulher pra casar. Mulher de cama e mesa. Mulher sobremesa. Mulher melancia, jaca, melão. Mulher Filé: "Chega de fruta. Homem gosta é de comer carne". Mulher da vida. Meretriz. Mulher da rua. Meretriz. Mulher da zona. Meretriz. Mulher à toa. Meretriz. Mulher da comédia. Meretriz. Mulher. Meretriz. Mulher. Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você. 
Mulher, uma obra em construção: Sorriso. Batom Boca Beijo. Hidratante. Sutiã. Escova Progressiva Inteligente. Cabelo Longo. Depilação a laser. Lisinha. Cheirosa. 100% completa. Pronta para consumo imediato. Peito. Bunda. Coxa. A cada ano são feitas 629 mil plásticas no Brasil. Silicone. Drenagem linfática. Jet bronze. Botox. Endermologia com Arte. Lipo-Aspiração mata. Diet. Light. In. Out. Gorda. Feia. Jogada fora. Pros cachorros. Na lagoa. No lixo.
A gente pensa que é mulher e é só fêmea, bichinho de estimação. Princesa. Gatinha. Filé. Gostosa. Cachorra. Galinha. Vaca. Piranha. Engulo tudo sem frescura. Amar. Agradar. Aceitar. Transar. Mesmo sem vontade. Sujeitar. Sorrir. Servir bem para servir sempre. Amar. Apanhar. Compreender. Perdoar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Morrer. Mesmo sem vontade.
Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você.
Todos os dias. Todos os dias, mulheres são destruídas.
A cada 2 segundos, uma boneca Barbie é vendida em alguma parte do mundo. A cada 12 segundos, uma mulher de verdade é violentada. Sthefany, 18 aninhos. Loirinha e sapeca como você gosta. Adoro beijar. Mesmo sem vontade. Sarada. Turbinada. Siliconada. Preparada. Como você gosta. Drogada. Bêbada. Abusada. Estuprada. Envergonhada. Excomungada. Culpada. Culpada. Culpada.
Como você gosta?

Ela tava pedindo. Ela tava merecendo.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

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eu aborto.
tu abortas.
somos todas clandestinas.
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terça-feira, 23 de setembro de 2014

feito tatuagem

como na música, eu queria ficar no teu corpo feito tatuagem, feito cicatriz marcar.
visível.
como posso ter dentro de mim este turbilhão este transtorno transbordamento transformação sem estampa na minha pele?
na verdade, acho que o que eu queria mesmo é que você estivesse no meu corpo feito tatuagem.
porque não é possível uma vida te alterar assim e isso não deixar traço. rastro. marca. cicatriz.
a gente devia ser igual parede de prisão em que se marca os dias.
ou calendário. com os feriados mais importantes sublinhados em vermelho.
eu queria mesmo é que minha pele guardasse a marca de seus dedos.
a trilha de seus lábios língua: cada gozo marcado na pele.
eu queria mesmo que em minha pele estivesse escrito: agora sou outra.
que seu gosto marcasse minha língua como ferro em brasa.
que suas curvas marcassem minhas mãos. aquela planície na qual suavemente pousa a curva de sua bunda.
queria a marca de suas coxas em meus dentes.

domingo, 24 de agosto de 2014





esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.esquecer.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Espaço do silêncio II - ELLA(s): a escrita

Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas.
Mulher princesa. Mulher boneca. mulher dócil muda. mulher rosa. mulher doce. Mulher sobremesa. Mulher de cama e mesa. Mulher para desfrute. Mulher melancia, jaca, melão. Mulher Filé: "Chega de fruta. Homem gosta é de comer carne". Mulher da vida. Meretriz. Mulher à toa. Meretriz. Mulher da rua. Meretriz. Mulher da zona. Meretriz. Mulher. Meretriz. Mulher. Meretriz. Mulher: uma obra em construção.
Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você. Sorriso. Boca Beijo Batom. Depiladores hidratantes sutiãs rolinhos pregadores talheres gleidy sache vassoura escova progressiva inteligente. A cada ano, no Brasil, são feitas 629 mil plásticas. Silicone. Lipo-Aspiração mata. Peito. Bunda. Coxa. Como você gosta. Drenagem linfática. Jet bronze. Botox. Diet. Light. In. Out. A gente pensa que é mulher e é só fêmea, bichinho de estimação. Gatinha. Cachorra, cadela. Vaca, galinha, piranha. Filé. Gostosa. Quente. Pronta para consumo imediato. 100% completa. Mulher. Ser humano do sexo feminino capaz de conceber e gerar outro ser humano e que se distingue do homem por essa característica. Mulher, parcela da humanidade. A mulher em relação ao marido. Esposa. Amar. Casar. Cuidar. Lavar. Passar. Sujeitar. Agradar. Transar. Mesmo sem vontade. Sorrir. Servir bem para servir sempre. Amar. Parir. Padecer. Amar. Sacrificar. Mãe Amar. Amamentar. Limpar. Jogar fora. No rio, na lagoa. Apanhar. Compreender. Perdoar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Apanhar. Apanhar. Morrer. Mesmo sem vontade.
Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você.
Todos os dias. Todos os dias, mulheres são construídas.
A cada 2 segundos, uma boneca Barbie é vendida em alguma parte do mundo. A cada 15 segundos, uma mulher é espancada no Brasil. Samy, 18 aninhos. Loirinha e sapeca como você gosta. Adoro beijar. Mesmo sem vontade. Sarada. Turbinada. Siliconada. Preparada. Espancada. Excomungada. Esquartejada. Jogada pros cachorros. na rodovia. na lagoa. na lixeira. Morta. Como você gosta. Destruir. Matar. Aniquilar. Dar cabo de.
Ex-terminar. Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são destruídas. 70% das mulheres mortas no país são vítimas de seus namorados, noivos, maridos. Eliza, 24 anos, esquartejada e jogada para os cachorros a mando do ex-amante e pai de seu filho. Leonice, 40 anos, 13 facadas, ex-companheiro. Maria Islaine, 31 anos, ex-marido. Ele apontou a arma para ela e atirou 7 vezes, sem que ela reagisse. Maria de Jesus, 28 anos, 3 tiros, ex-marido. Luciene, 24 anos, 2 tiros, ex-namorado. Polyana, 23 anos, 18 facadas, ex-marido. Eloá, 15 anos, ex-namorado: morta com 1 tiro na cabeça, sem que ninguém reagisse. Janine, 16 anos, grávida de 8 meses, morta pelo namorado com pelo menos 42 facadas, sem que ela eu você. sem que ninguém reagisse.

espaço do silêncio II - ELLA(s): impressões


espaço do silêncio > praça 7
fluxo vertiginoso de pessoas.
estendo o lençol cravado de cruzes vermelhas. isso chama atenção.
a cruz vermelha em minha boca impõe um silêncio sem explicação.
um inventário de mulheres mortas. destruir. aniquilar. dar cabo de. ex-terminar.
um rapaz lê.
uma mulher lê.
sua comoção co-move-me.
e nos encontramos lá. nessa comoção além das palavras (das muitas palavras impressas no papel).
quero me juntar a você, ela diz. não agora.
ofereço minha escrita. meu telefone. meu nome. ela vai me procurar. ela vai me procurar?
espaço do silêncio > praça da estação
bancos. jardins. estátuas. (rastros da ação de outro dia: dançar é uma revolução)
aqui tudo tem forma e sentido.
pessoas atravessam os quadrados.
as palavras rastros soltas pelo espaço compõem um quadro com meu corpo. o seu antônio diz:
bonito isso que você faz. te vi aqui dançando outro dia. um pano branco. era bonito.
eu agradeço e cerro minha boca com a cruz, mas não antes de responder:
essa ação? chamo de espaço do silêncio.
(apesar de achar que, às vezes, o texto no papel fala demais).

quarta-feira, 2 de abril de 2014

muso

o bom do muso
  é ele ser muso
          sem querer
  é ele ser muso
          sem saber

desejo

desejo o dia em que
    nossos corpos nus
                        a sós
fiquem
                 entrelaçados
entre estrelas laçados.
         estrelados.
desejo
         espaço entre coração e pele
                   abismo
                    fenda
                    fundo
entra...          fundo            ... pode entrar.

quinta-feira, 6 de março de 2014

manifesto pessoal

EU, NINA CAETANO, DECLARO QUE, A PARTIR DE HOJE, 
MEU CORPO É SOMENTE M(EU).
EU NÃO PERTENÇO A NINGUÉM.
A NINGUÉM NADA DEVO. NEM OBEDIÊNCIA. NEM SATISFAÇÃO.
EU SOU MINHA.
E NÃO DE QUEM QUISER.

sábado, 1 de março de 2014

déjà vu II



pele língua
sangue
lambe
dentes
crava carne
branca lua

branca gota
lambuza-me 

preto

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

déjà vu

grelo língua
boca seio
pernas pau em meio
gozo goza glosa
mete
esse é só o mote.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

ciranda

pensamento voa
aquece
peito pele estômago
tudo se altera
com ele dentro de mim

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

ménage à trois

ele toca o violão
encanto:
meu corpo vibra.

rapidinha

meu corpo chapa quente
sua língua gota fria
escorre pela pelo pele

sábado, 25 de janeiro de 2014

conto pornográfico

 (uma imitação barata de Hilda Hilst)


         o dia em que nasci. eu tinha 13 anos e era virgem. meu pai, um velho bêbado e babão, resolveu me vender antes que fosse tarde demais. como ele já tinha tirado o cabaço das minhas duas irmãs (e o destino delas tinha sido a prostituição, sem que ele nada lucrasse com isso) ele resolveu me poupar e, dessa vez, levar algum lucro com a minha rara virgindade me vendendo para o maior bordel da cidade.
o dia em que nasci. eu tinha treze anos e meu pai resolvera me vender apesar dos meus peitos mal empinarem a blusa.
quem sabe? meu pai pensou. ela tinha uma pele bonita, macia. as coxinhas grossas, uma bunda redonda, carnuda. A carne tenra... os peitinhos. Os peitinhos... meu pai resolveu dar-me um banho.
éramos pobres e o banho tomávamos em uma bacia de metal. o banheiro era um quadrado de cimento sujo e quebrado, coberto por uma telha de zinco que fazia dali um inferno. meu pai encheu a bacia de água morna, me arrastando até ela. minha blusa, um pouco rasgada, deixava entrever o bico do seio. a respiração do meu pai se acelerou. os olhos tinham um brilho mau. ele puxou minha calcinha, arrancando minha saia avidamente. eu estava imóvel e meu pai, diante do meu corpo nu, ajoelhou-se como diante de uma santa. abriu as minhas pernas e roçou os dedos pelo meu grelo. pediu-me que pegasse a caneca e jogasse água no meu corpo. que a deixasse correr. ele a recolheria ali, no encontro das coxas. comecei a sentir um calor me invadindo. ele lambeu a água, devagar. Esticou a língua e lambeu de novo, abrindo caminho entre os meus pêlos. Meu corpo bambeou e ele agarrou minha bunda, invadindo ainda mais minha vagina como um cachorro sedento, a língua de fora, os olhos saltados a me lamber também. e gemia como uma criança diante do peito da mãe. suas mãos agarravam minha bunda como se fossem duas redondas luas. a língua misturava fogo à água. Sem nem sentir eu empurrava o meu quadril contra seu rosto num movimento instintivo de prazer. Ele acelerou as lambidas mais e mais mais mais mais mais... gozei. Meu corpo bambeou mais uma vez. 
meu pai abriu a calça...



... ainda não entendi que graça tem ficar lendo sobre a vida das outras pessoas! eu, por mim, nunca gostei nem de falar da vida alheia.
sabe, leitor, estive pensando...será que eu não devo começar me apresentando primeiro? Afinal, que graça é que tem... calma, leitor ansioso!
cerre um pouco a cortina. pediram-me para contar a minha vida e é o que vou fazer! mas se você nem souber de quem se trata, que graça tem querer dar uma espiadinha atrás da minha cortina?! credo, que pressa!
... não tema, meu gostoso leitor, tentarei ao máximo não ser “literária” como Sade. pois cá muito entre a gente, ele, pelo menos no que concerne à escrita, era um tanto monótono... já sei, já sei! para um conto pornográfico, eu também já estou sendo bem – com o perdão da palavra antiga – caceteadora...   (desculpe, não resisti ao trocadilho).
Pois então, prepare-se, meu caralheitor!
o passeio será longo, cheio de paisagens inesperadas. sugiro que fique mais à vontade. desabotoe a camisa, tire os sapatos... deixe mesmo a calça entreaberta. como eu disse, as paisagens podem ser inesperadas...

meu pai abriu a calça. foi o primeiro caralho que vi. grosso. grande. e sujo. ele lavou a imensa pica vermelha na bacia e depois se ergueu, me puxando pelo cabelo. fez com que me ajoelhasse. diante dos meus olhos, a cabeça luzia. uma gota brilhava. lambi. meu pai gemeu. lambi de novo, como quem lambe um gostoso sorvete. meu pai de olhos fechados agarrava a minha cabeça. eu chupava, lambia, sorvia. meu pai me chamava de puta gostosa safada piranha enquanto jatos de porra inundavam minha garganta.
e esse foi meu nascimento.
então, ele vestiu-me uma roupa branca e limpa e me levou para o maior bordel da cidade. era uma casa grande e suntuosa, construída em estilo neo clássico (coisa que, evidentemente, eu não sabia naquele momento. A cultura fui adquirir bem mais tarde). colunas cercavam a entrada. a casa era branca como eu.
quando entramos, a primeira coisa que me impressionou foi o forte cheiro de coxas que pairava naquele lugar. e em seguida as luzes. coloridas. difusas. tudo ali era difuso. contra esse fundo, Madame se destacava: era alta, loura e majestosa. o rosto era muito maquiado e ela toda cheirava, o perfume misturado ao creme e ao pó de arroz. as pernas eram longuíssimas sobre o salto incomensurável. apesar disso, Madame não nascera mulher. nascera homem. sim, a cafetina daquele bordel era uma travesti.
quando Madame me viu sorriu. para o meu pai ela fez cara feia, não gostava daquele velho bêbado e sujo na sua casa de fantasia. ela pagou, ele foi embora e me deixou.
nunca mais o vi.
Madame me pegou pela mão e me conduziu escada acima. louro ou moreno?
moreno... eu queria sentir meu primeiro homem bruto dentro de mim. nada de amor. nada de refinamentos. que fosse rico! muito. Madame sorriu novamente e me disse que eu seria a rainha daquele bordel. Depois abriu a porta do quarto dela, fazendo-me entrar em um paraíso cor-de-rosa. Havia duas moças lá dentro, as duas também muito jovens. Uma delas, loirinha e magra, empurrou-me contra o colchão macio... Madame tirou, ela mesma, meu vestido e passou óleo sobre meu corpo, perfumando-me. A moça negra, de ancas largas e peitos estupendos de tão duros, trouxe uma caixa de jóias de fantasia, da qual madame tirou pérolas tão virginais quanto eu. sobre o meu corpo, somente um pano branco.
Madame então abriu minhas pernas e prendeu meus pés aos pés da cama. eu gosto de chupar mulher, sabia? meus peitos imediatamente eriçaram, machucando o tecido. o gostinho ácido das virgens. atou minhas mãos à cabeceira. eu não sentia medo. sentia sua respiração quente invadindo meus pêlos. o cheiro de cabelo de milho...
e esse foi o meu batismo.
quando terminou, Madame me desamarrou depois lavou a boca e retocou o batom. lavou, ela mesma, a minha buceta molhada. Então foi para a sala e escolheu um fazendeiro, um homem acostumado a comprar tudo como se tudo fosse novilhas. Madame vendeu-me cara, afinal eu era produto raro.
o homem era baixo, forte, atarracado. a pele era sebosa, suada. os olhos, miúdos, tinham um brilho maldoso como os olhos de meu pai. vendo-me nua sobre a cama, limpa, linda em meu pano transparente, ele subiu sobre mim e abriu as minhas pernas. pôs o pau curto e grosso dentro da minha vagina apertada, rompendo meu hímen com facilidade. o homem ficou ali, metendo em mim até gozar. apertava meus peitos, babava neles. beliscava um pouco, com certa maldade. e gozava.
resolvi surpreendê-lo.
virei-me de costas, oferecendo-lhe a bunda redonda. ele arregalou os olhos, espantado. então, eu fiquei de quatro, como uma égua, e como uma égua no cio rocei as minhas carnes brancas na sua pica que estourava de tesão. ele sentia a porra invadir cada centímetro do seu pau, enquanto me agarrava pelas ancas. dava uns tapinhas na minha bunda, falava bunda gostosa minha potranca e metia a vara no buraco quente, gostoso, apertado do meu cu. meu rego latejante engolia apertava a cabeçorra vermelha do seu pau. ele gozou.
depois dessa noite, tornou-se meu amante oficial e financiava todos os meus luxos e extravagâncias. e eu as tinha muitas. como uma menina caprichosa, eu não cansava de pedir. gostava de dar festas estrondosas, verdadeiras orgias, para todo o bordel. como uma rainha, eu tomava banhos de champagne e andava nua, sobre um cavalo, pelos jardins do bordel, além de financiar alguns pintores dos quais era musa e amante.
O leitor bem tava gostando, né? Desse linguajar meio século dezoito salvando a dignidade das minhas memórias... é o espírito livresco querendo encarnar outra vez! claro, nada disso é verdade. ou, pelo menos, quase nada. mesmo sendo puta eu gostava mesmo era de ler e essa era uma das poucas extravagâncias que eu tinha. Madame tinha me ensinado o gosto pelos livros e eu os tinha aos montes e de todos os tipos. Eu era uma devoradora e o comprador de novilhas gostava de mim assim, presa ao quarto e em delírio eu inventava orgias, banhos de champagne e vida de princesa. vá lá, eu era a teúda e manteúda do fazendeiro. tinha jóias, dinheiro. mas era uma caipira de treze anos que acabara de entrar para a vida.
o fazendeiro tinha se viciado em comer o meu cu. todos os dias, como um bom padre Sádico, ele vinha ao bordel enfiar a pica nas carnes brancas da minha bunda. às vezes, uma boa chupada me salvava. era outra das minhas especialidades. fazia questão de tirar sua roupa e ia lambendo seu corpo, traçando uma linha de fogo até o pau. caralho em riste. após pesar suas bolas com minha língua, eu enfiava, sem aviso, aquela vara grossa em minha boca entreaberta. a cabeça, descoberta, estava à minha mercê e eu a apertava, suavemente, entre meus lábios. de repente, eu enfiava aquela verga toda na minha boca. a boca, apertada como uma buceta quente, sugava sugava. para em seguida torturar cada centímetro de sua pica latejante com lambidas bem... bem vagarosas... com a desculpa de prepará-lo para a “empreitada”, muitas vezes fiz com que gozasse ali mesmo, na minha boca. uma boa parte das vezes, no entanto, meu cu era agraciado.
como eu era muito nova, Madame não queria me ver “arrombada” e deu um jeito de me arrumar outro cavalheiro. dessa vez ela não pediu minha opinião, resolvera me arrumar um velho pacato e sem extravagâncias. era um banqueiro, um homenzinho magro e sorridente, sempre com um ar de quem pede desculpas. eu tinha uma vontade imensa de maltratá-lo e ele parecia gostar, pois jamais reclamava. 
habitualmente, ele aparecia no fim da tarde e nesse dia resolvi esperá-lo com uma surpresa. o entregador de bebidas do bordel era um jovem negro, impetuoso como um garanhão. quer me comer de graça, sem pagar nada? ele, com o pau endurecido roçando minha bunda, me seguiu até o quarto. sem paciência, rasgou minha roupa. chupava os meus peitos, era voraz, bruto e aquilo me agradava. abri as pernas. o negro afastou minha calcinha de lado e meteu a imensa pica roxa na minha buceta molhadinha. a pele negra contrastava com a brancura das minhas coxas. ele me mordia, chupava, metia. eu gozava gozava gozava sem fim.
ele me virou de costas, lambuzou o pau grosso, cheio de veias, assombroso, assustador, com sua saliva e abriu no meio a minha bunda, branca como uma lua. eu gemi de medo. ele encostou a cabeçorra. a porta se abriu. impaciente com a interrupção, ele olhou para a porta. eu disse: entra. pode entrar...
enquanto o negro entrava no meu cu ardente, o cavalheiro magrinho entrava no quarto, mortalmente pálido.  







O leitor deve admitir: o trocadilho é tão perfeito que impede a continuidade da obra. Entra, pode entrar... e eis que a porta se fecha bem na minha cara.
O que pode vir depois disso? Hein, meu caralheitor?




quinta-feira, 2 de maio de 2013

dancemos, dancemos tod@s, senão, estaremos perdid@s!

é engraçado que, ao parafrasear pina para fazer meu título e falar de uma condição hoje vital para mim, defrontei-me também com a marcação de gênero. e com a percepção do modo como estas duas questões - a dança e o feminismo - estão, a meu ver, em muitos momentos do meu trabalho, misturadas... explico.
sábado, dia 27 de abril, participei da performance de rua "dançar é uma revolução!". essa ação, organizada por um coletivo (não-organizado) de mulheres, pretende-se mensal e itinerante. a idéia é que, no último sábado de cada mês, mulheres se reúnam, em alguma praça de belo horizonte, para dançar contra a violência.
na primeira vez que fizemos, foi como uma resposta ao convite do one billion rising, evento de ordem mundial que tem a seguinte chamada (aqui em versão livre): "uma em cada três mulheres será agredida durante toda a sua vida. 1 bilhão de mulheres agredidas é uma atrocidade. 1 bilhão de mulheres dançando é uma revolução". lembro-me que o dia marcado para acontecer a ação, no mundo, havia sido 14 de fevereiro. no entanto, em várias cidades do brasil a coisa estaria acontecendo no sábado, dia16.
foi legal observar isso porque, ao receber um convite de uma amiga de londrina, pelo face, para participar da ação no dia 14, ou seja, para dançar em qualquer lugar, em minha cidade, pensei que seria interessante fazer isso coletivamente (acredito muito que pelas experiências anteriores do obscena com a marcha mundial das mulheres e com outras performers feministas com quem dialogamos sempre, experiências sempre muito produtivas, do ponta de vista político e estético) e, como estava muito em cima da hora para fazer na quinta, acabei chamando esses grupo de mulheres parceiras, colaboradoras, a desenhar, para o sábado 16,  uma dança/ação coletiva na praça 7, lugar tradicional de protesto na cidade.
partimos de alguns elementos já desenvolvidos pelo obscena - como a idéia de dançar cada uma a sua música, com fones de ouvido, como na ação performática festa no metrô - e de outros, que surgiram de símbolos do movimento feminista, como a cor roxa para nos vestirmos; ou das ações individuais, como a escrita a giz no chão - que desenvolvo em minhas ações desde 2008 - ou o cartaz da resistência negra, empunhada por luana tolentino.

e assim fizemos: de roxo e branco, cada uma com um set musical diferente, que escutava em seus fones de ouvido, dançamos juntas, na praça: eu, joyce malta, lissandra guimarães, clarissa alcantara, flavia fantini, debora fantini, hozana passos, luana tolentino, romênia reis, raquel medeiros, leticia castilho, thálita mota, kristoff silva, áurea carolina, scheylla bacelar... 
ah, foi bom. ver uma mulher que passou por ali, parar e dançar conosco, porque "já apanhou muito e agora não apanha mais. nunca mais".foi bom dialogar com a cidade a partir do corpo e do giz. misturar, à minha dança, e à dança das outras, palavras que falavam da gente e da situação contra a qual lutamos diariamente e em razão da qual estávamos ali.
daí, a partir desse dia, uma de nós, letícia castilho falou: não seria ótimo se a gente dançasse toda semana, até as pessoas começarem a falar "ó, ali estão aquelas mulheres que dançam contra a violência..."?
achei essa idéia tão linda. levei tão a sério, que resolvi propor um grupo no facebook para organizarmos essa ação. senão semanal, como se mostrou inviável, pelo menos mensal. e uma questão para mim era: como torná-la mais marcante, inclusive para nós?
no mês seguinte era março e resolvemos fazer a ação no dia internacional das mulheres. por um lado, foi muito interessante a integração à marcha e desenvolvê-la junto com o obscena. por outro, a ação, em si, perdeu a força, diluiu-se em uma massa que, por sua vez - o que foi ótimo! - ganhou força nessa junção coletiva, como também ganhou força os corpos que traziam representações individuais - do véu muçulmano ao corpo machucado - em performances que ocorriam a todo momento.

foto: Matheus Silva


agora, em abril, optamos em dançar na praça da rodoviária e dancei com o corpo escrito, dancei com várias palavras de ordem em meu corpo, desde "não é não" e "meu corpo, minhas regras" até "dançar é uma revolução", ou com dados concretos, como aquele da chamada: "1 a cada 3 mulheres será agredida" ou a estatística brasileira, "10 mulheres mortas por dia". e, para mim, a ação, feita assim, foi bem reveladora!

 Foto: Nina Caetano


a dança se revelando quando, com a escrita no corpo, as palavras também sugeriam movimentos, para serem vistas. para serem lidas. foi uma experiência bem interessante, principalmente ao pensar que ela vem de uma trajetória de ações investigadas dentro do obscena, de experimentos que lidam com aquilo que tenho chamado de escrita performada: a escrita no calor da ação performativa.
vejo isso desde baby dolls, com as primeiras escritas a giz no chão (na verdade, vejo antes: desde a vitrine dos corpos prostituídos, proposta por marcelo rocco, ainda no teatro marília, em 2008) até espaço disponível, anuncie aqui, intervenção realizada pelo obscena no evento corpolítico, em março de 2013, passando pelas mulheres painel, experimentadas em diálogo por lissandra guimarães e por mim junto a outras mulheres, como, por exemplo, na ação performática 25 de novembro... nela, é evidente também os rastros de ações lúdicas, como a já citada festa no metrô...
por outro lado, vem se intensificando, cada vez mais, a relação com a dança. dentro do processo das ondas, um material que vinha me instigando dizia respeito à jinny, talvez a personagem mais corpo de virginia, e eu já havia até brincado com a idéia de uma dança de palavras e de tecer um tango com elas - clarissa já havia até feito uma primeira versão musicada disso... e, recentemente, fred caiafa propôs trabalhar também a partir da dança, do que ele está chamando de uma dança de afetações.
com o interesse cada vez mais nítido de levar as ondas para as ruas, resolvemos, então, eu e ele, sair - e para isso chamamos joyce, em primeiro lugar, para dialogar conosco a partir de seus materiais sonoros e performáticos, e também todos os demais, incluindo clóvis, que não está nas ondas, mas está - para uma deriva dançada pelo centro da cidade. essa deriva tinha o intuito de traçar um mapa psico-geográfico-corporal, uma corpografia das luzes e sombras da cidade.
fomos eu, fred, joyce, clóvis e leandro. nos encontramos às sete, na praça da estação, e rumamos em direção ao viaduto de santa tereza, pela andradas. joyce, com o gravador, captava nossas vozes e os sons do centro nervoso. nós todos nos lançamos em distintas experiências.
eu parti em busca da sombra. e como era múltipla e tênue! como a cidade é iluminada! ou, como disse clóvis, ensolarada... além da sombra, uma frase me guiava: estou coberta por carne quente. como as palavras escritas no corpo, no outro dia, essas palavras inscritas na pele guiavam meu movimento. em diálogo com as sombras. e com as luzes que passavam.
quando chegamos embaixo do viaduto de santa tereza, a configuração do trabalho se alterou. se antes, o movimento era de ordem bem individual, ali ganhou uma dimensão mais coletiva. trabalhávamos em um mesmo fluxo de ações. recuperamos movimentos já improvisados nas ondas. ensaiamos dançar com a arquitetura e com os passantes. ações surgiam fugazes, como o prolongado aplauso aos usuários de um ônibus que parara no sinal fechado.
da próxima vez, quero experimentar o giz.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Espaço do Silêncio: manifesto.



 Foto: Roque Soares

Ação. Açã: palavra tupi guarani que significa Um grito, um protesto.
Quero cantar a antropofagia do índio – só a antropofagia nos une! – que honra seu inimigo deglutindo sua carne e absorvendo sua força cultura alma numa interpenetração materializada na alegria dos corpos. Somos todos Guarani Kaiowá!
Quero cantar a bravura dos mais de 600 índios a ocupar o Plenário da Casa do Povo. Casa do Povo: É Mentira muitas vezes repetida! Fora, invasores! A Assembléia Legislativa não nos representa! Somos todos Tupiniquim Tupi Guajajara Guarani Kaiowá Kaiapó Maxakali Munduruku Jê Pataxó Bororó Tukano Kariri Karajá Kaingang Nambikwara Kamayurá Maku Sateré Mawé Ñandeva Yanomámi Matis Aikewara Kadiwéu WaiWai Uru-Eu-Wau-Wau Xavante Xokren Xikrin Iawalapiti Txikão Txu-Karramãe Zuruahã Ramkokamenkrá Suyá... e tantos outros! 240 povos, 183 línguas, 513 anos de genocídio.
Antes do português descobrir o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.
Não vou cantar aqui (queria, antes, calar!) a devoração das máquinas rodas de Hilux dilacerando os corpos de meninos índios.
Queria calar as máquinas que em mãos de fazendeiros ou delegados federais cospem balas a atravessar a cabeça de adolescente guarani kaiowá ou chefe munduruku.
Calar as máquinas corpos machos no comando que estupram índias Marlene em gesto mil vezes repetido desde que o português pisou em Pindorama. Ah, fosse dia de sol, teria o índio despido de todo preconceito o português ao invés deste cobri-lo de vergonha, religião e morte?
Quero juntar minha voz à voz dos povos indígenas que clamam por justiça! Açã!
Nota: atualmente, cerca de 50 homens, 50 mulheres e 70 crianças, índios Guarani Kaiowá vivem às margens de seu território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay, às margens do rio Hovy e das terras em que deveriam ser suas, em estado de morte anunciada: isolados, sem assistência e cercados de pistoleiros. Os índices de mortalidade infantil são altos, mas mais altos são os números de índios assassinados e de suicídio entre os jovens índios em busca da terra sem males.
Atualmente, 80% dos suicídios cometidos neste país, são cometidos por índios.
Minha alma grita e não pode se calar.
Nina Guarani Kaiowá Caetano
Em Belo Horizonte, Pindorama.
Ano 459 da Deglutição do Bispo Sardinha.