sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Um soco no estômago

Leitura crítica de Borboletas de Sol de Asas Magoadas, espetáculo assistido durante o FENATA. 
Ponta Grossa/PR

“Se a pessoa está tendo muito problema com a sexualidade do outro é porque alguma coisa não está bem resolvida dentro dela” (travesti Bety).

            O Brasil é campeão mundial de crimes contra LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Contra 35 assassinatos ocorridos no México (segundo lugar nas estatísticas) e 25 ocorridos nos EUA (terceiro lugar), no ano passado, são aproximadamente 200 crimes por ano (cerca de um assassinato a cada dois dias) no país. Destes, 37% são contra travestis. Ainda segundo o levantamento, realizado pelo GGB (Grupo Gay da Bahia), os estados mais homofóbicos são a Bahia e o Paraná que, só no ano passado, contabilizaram 25 mortes cada um. No Paraná, a maioria das mortes é de travestis, sendo Curitiba a metrópole na qual mais homossexuais foram assassinados no Brasil.
            Construído a partir de uma pesquisa de campo realizada com travestis nas ruas de Porto Alegre/RS, o espetáculo Borboletas de Sol de Asas Magoadas, com concepção, criação e magnífica atuação de Evelyn Ligocki (que divide a direção com Celina Alcântara), trata, justamente, do universo de brilho e preconceito, riso e desprezo, violência e solidão em que elas vivem.
O espetáculo começa ainda no saguão de entrada, onde Bety, nossa anfitriã, nos recepciona e nos convida a entrar em sua “casa”. É impressionante a mímesis da atriz que, sendo mulher, representa um homem que quer ser mulher, superlativa em sua feminilidade. Seus gestos, posturas, linguajar e inflexões vocais, minuciosamente construídos, criam um jogo de ambigüidade (é homem ou é mulher?) que me parece absolutamente necessário para o que será tratado em cena.
            Com o público já acomodado, Bety transita pela platéia e chama alguns espectadores para se sentarem no palco, junto a ela. Ela brinca, usa e abusa dos trejeitos típicos das travestis, do jogo de cabelo, do vocabulário. Captada a simpatia da platéia, ela vai, aos poucos, revelando-nos o seu dia-a-dia, no qual se misturam a alegria e a dor: seus truques, mascaramentos e pequenas tragédias, como o assassinato da amiga, sua “mãe de quadra”. Bety expõe seu corpo, chora, dá risada, relata as agressões diárias que sofre e o seu trabalho na prostituição, aproximando-nos da humanidade desses seres que, em geral, são vistos (e tratados) como aberrações.
            No entanto, ao assistir ao trabalho ontem, no Cine-Teatro Ópera, fiquei com a nítida impressão de que ele foi concebido para outro tipo de espaço, que permitisse ao público, de fato, adentrar a intimidade da travesti, estar em sua casa. Nesse sentido, a estrutura de palco italiano – que, nesse caso, parecia exigir outra forma de dramaturgia – prejudica a cumplicidade que a atriz, por meio de uma relação direta, olho no olho, constrói com o espectador. Este, em diversos momentos, se afasta dos fatos narrados em cena: foi especialmente perceptível o momento em que Bety, ao sair para o trabalho – a atriz se dirige para o fundo do palco, no qual simula uma rua da zona de prostituição – é cuspida, depois espancada e estuprada. A ação toda é construída a partir das reações da atriz, que simula as agressões com o próprio corpo. A cena, embora forte e violenta, provocou risadas na platéia, talvez pela dificuldade de construí-la, naquele espaço, com verossimilhança. Talvez pela dificuldade de construí-la com verossimilhança, à vista do espectador.
            Em seguida, machucada no corpo e na alma, Bety retorna à sua casa e este me parece ser o momento chave do espetáculo, no qual, por meio do desabafo da travesti, a atriz Evelyn pode colocar em cena o seu posicionamento e escancarar a hipocrisia moral e social na qual vivemos mergulhados. Momento precioso em que, devido ao patético da ação – na qual se misturam o sofrimento e a revolta, o choro pungente e o espanto – esse desmascaramento encontra eco, pela contundência de seu discurso, em nossa mais profunda humanidade.  

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Em busca do deus

Leitura crítica de Agda
(espetáculo apresentado durante o FENATA, em Ponta Grossa)

“E outras vezes, Potente Implacável Senhor, que teria sido melhor não morrer e ficar fiando o destino das gentes e Agda-daninha às noites só cantando e dançando, que é verdade que sei melhor cantar e dançar do que morrer.”

O cenário é simples: três painéis, no fundo do palco, delicadamente iluminados. Vozes começam a soar, em sussurros ininteligíveis, ganidos de cães. Corpos se movimentam no escuro, em gestualidade animal. Assim começa Agda, espetáculo que é fruto da parceria, iniciada em 2001, entre a Boa Companhia e o Grupo Matula Teatro (Campinas/SP). Como no conto homônimo de Hilda Hilst – no qual o espetáculo é inspirado – Agda é também o nome da personagem central, mulher que, por romper com os tabus da comunidade em que vive, atrai sobre si todo o ressentimento, fúria e crueldade de seus habitantes.
Misturando elementos do teatro e da dança, Melissa Lopes, Aldiane Dala Costa e Veronica Fabrini, as três atrizes em cena, personificam não só Agda, mas também as vozes da aldeia, principalmente dos três homens – Kalau, Celônio e Orto – que são seus amantes. E são justamente as vozes dos três que ouvimos soar, já no início do espetáculo, como percepções supersticiosas da mulher: Agda-cadela, Agda-daninha, Agda-lacraia. Agda, aquela que aparece, para cada um deles, como distinta e sempre outra. Agda inapreensível. Como Orto diz, nesse primeiro diálogo que soa em off, enquanto as três atrizes-bailarinas se movimentam, construindo e desconstruindo, com seus corpos e vozes, imagens que remetem à animalidade dessa mulher, maldita por todos: “muita coisa junta vive dentro de Agda e a nossa parte é nada”.

A partir do que poderíamos chamar de uma dramaturgia do corpo, o espetáculo constrói com delicadeza a oposição entre Agda – mulher em busca da transcendência, angustiada entre suas dimensões sagrada e profana – e o olhar, violento e opressor, que a comunidade lança sobre ela. Para isso, coopera, além do ótimo desempenho das três atrizes, a manipulação do figurino, assinado por Juliana Pfeifer e Sandra Pestana. Simples, belo e versátil, encontra especial destaque nas saias que, se transformando em calças, vão compor, juntamente com paletós e punhais, as figuras masculinas. Ao serem manipuladas pelas atrizes, elas se tornam véus, mortalhas, extensões do corpo de Agda. Ao final do espetáculo, às saias e paletós, as atrizes acrescem panos vermelhos – que lembram, em chave metonímica, trajes eclesiásticos – para compor os diversos tipos que habitam a aldeia e que se dirigem ao público, como promotores, juízes e carrascos, na condenação da mulher da qual não conseguem suportar a singularidade.
Essa mesma delicadeza está presente no movimento quase coreográfico da cena – e aqui quero destacar um dos momentos mais belos de Agda: o insólito tango dançado pelos homens que relembram, com raiva e desejo, sua amante – bem como na inspirada trilha sonora, composta por Mauro Braga e Silas de Oliveira, e no trabalho vocal das atrizes, principalmente de Aldiane Dala Costa que, em alguns momentos, consegue produzir suspensões poéticas, em outros, uma musicalidade quase encantatória.
O texto, aliás, merece especial destaque: a potente transcriação dramatúrgica, a cargo de Moacir Ferraz (que também assina a direção), não só conserva a natureza híbrida do conto de Hilda Hilst – no qual se mesclam as instâncias dramática, narrativa e lírica – como, ainda, mantém toda a intensidade de sua escrita, ganhando preciosas nuances no jogo entre a poesia e os corpos que transitam entre as energias masculina e feminina, entre o humano e o animal, entre o profano e o divino.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

sem juízo: experimentos para um roteiro

em julho demos partida, lissandra guimarães e eu, à pesquisa de materiais que fundamenta o processo de criação de sem juízo, roteiro work in process objeto do projeto (em andamento) aprovado no fundão 2011. a partir de agosto, começamos a exercitar as práticas necessárias para o exercício de criação de cenas que serão/são material para o roteiro. começamos também a experimentar o uso da câmera. mas foi a partir da participação de leo souza no trabalho, já em meados de agosto, que a coisa começou a deslanchar.
como orientador do projeto, leo havia proposto trabalhar conosco a partir de workshops que cobririam certos temas, relacionados  à linguagem audiovisual. como sou dramaturga e sempre trabalhei com teatro, minha perspectiva era bem distinta do trabalho com a imagem que se faz com a câmera. nesse sentido, as contribuições do leo têm sido extremamente valiosas, bem como os desafios que ele tem nos proposto.
a partir das primeiras conversas (ainda em agosto), quando ele levantou as várias possibilidades de relações entre o som e a imagem, já começamos a produzir materiais para trabalhar, como ele dizia, a partir do quadro e não da imagem ao vivo, da imagem presa pela lente da câmera e não pelo olho nu.
revendo as anotações, leio:
"antes de tudo, eu gostaria que a senhora me fizesse um breve relato do fato.
luz incide sobre a mulher. Barulho do projetor. vemos: sua boca? sua sombra? a mulher acuada sob a luz?
work in process: hoje demos início aos experimentos com luzes/projeções, fizemos o primeiro teste com a câmera, a partir das questões levantadas pelo leo".

foto: nina caetano


em setembro, tivemos o primeiro workshop: sonoridades. e o desafio: construir 3 ações sonoras e 3 imagens sonoras. reproduzo abaixo as viagens em torno das possíveis idéias para realizar isso
- ações/imagens sonoras:
1. Humilhação: mulher tentando agradar (felicidade conjugal) e é subjugada por um som que a humilha (vaias? risadas?) - leo pergunta: ao invés de utilizar o som de humilhação mais óbvio, poderíamos pensar que som humilharia essa mulher, talvez sons tirados do cotidiano dela?
2. Apanhar: mesma situação, sons de espancamento.
3. Emudecer: contraste voz masculina/feminina. mulher tenta falar, mas vozes masculinas a abafam (sons do universo masculino? risadas? cantadas chulas?). mulher tenta falar um assunto, é cortada por um homem que a elogia.
4. Mudança na imagem pelo som: o som mudaria o ritmo da imagem? mulher dançando, ritmos musicais diferentes (trabalhar também com O SOM DA QUEDA DELA).
5. Mulher sendo torturada pelo som. pode ser: dança sem fim, com diversidades sonoras. tortura: música. ruídos (quais?). vozes/palavra. menor aceleração corporal/maior aceleração musical e vice-versa.
6. Mudança na imagem pelo som II: corpo feminino/peça de roupa. progressão de imagens: peças de roupas soltas até o corpo (imagem clichê de sexo). Sons de coisas quebrando. silêncio. Leo sugere começar com um som que pareça uma coisa (o sexo), que seja ambíguo, mas que é outra: por exemplo: gemidos que logo vemos ser de dor, que se transformam em gritos...
essas eram as minhas ações/imagens (paisagens?) sonoras... as de lissandra eram outras, e brincavam com os sons da casa, numa casa vazia. com a imagem da mulher porta. foram feitos vários testes de imagens, para imagens minhas e dela: da dança, da porta, do sexo/violência?
experimentamos fazer com que o som produzisse relações até então inusitadas (pelo menos para nós) com a imagem... o projetor de slides tem se mostrado bastante produtivo! sim, o trabalho tem sido bem produtivo...

video




video 

vídeos: leonardo souza





quarta-feira, 28 de setembro de 2011

eu aborto, tu abortas, somos todas clandestinas

Eu fiz um aborto. Já mãe, com a minha vida resolvida e sem desejo nenhum de ter outro filho e "começar tudo de novo", resolvi abortar. E como foi difícil! Não dentro de mim. A decisão estava tomada e eu estava tranqüila, apesar dos sentimentos de culpa e sensações supersticiosas (resquícios de minha criação católica) de que eu seria punida. Sensações que eram intensificadas na medida em que eu percebia como era difícil fazer um aborto em um país no qual ele não é legalizado. Não conseguia referências médicas - quando as conseguia, os médicos não mais atuavam pelo risco que isso implicava - e não consegui acesso aos remédios que possibilitariam realizar um aborto medicinal. Quando obtinha informações, os remédios eram caríssimos e a fonte não confiável (corria o risco de comprar os remédios, tomá-los e a gravidez não ser interrompida). Percebi o quanto a ilegalidade do procedimento favorece o nascimento de um mercado que se aproveita da fragilidade da situação em que as mulheres se encontram, de um mercado que explora o desespero alheio.
Por fim, com uma ONG internacional, consegui o oferecimento dos medicamentos, em um valor razoável (cobrado para que outras mulheres, sem condição financeiras, possam recebê-los de graça)
Nesse meio tempo ficava o tempo inteiro imaginando se eu não tivesse as condições que eu tinha: financeiras, emocionais, familiares. Eu estaria perdida! Sozinha, sem opções e sem ajuda e com muito medo: da punição legal, do risco físico concreto e confrontada com a possibidade de ter que criar um filho indesejado. UM FILHO INDESEJADO. Quando, de fato, as coisas poderiam (e deveriam) ocorrer de modo muito mais simples e seguro.
Finalmente, os medicamentos chegaram no último minuto do segundo tempo e realizei o aborto: este foi fisicamente muito tranquilo. Ou seja, se houvesse descriminalização do aborto, o processo seria bastante simples: sem medo, sem culpa e sem risco. Não para mim. Mas para as milhares de mulheres que engravidam sem querer e que não têm condições ou não querem levar a gravidez a termo. Está na hora de acabar com essa hipocrisia social: os abortos acontecem, independente da ilegalidade. Esta só favorece a exploração da situação de desespero em que as mulheres se encontram. Só favorece o mercado negro dos medicamentos. Só favorece o risco e a morte de milhares de mulheres, todos os anos.


As mulheres "entre 20 e 29 anos, em união estável, com até oito anos de estudo, trabalhadoras, católicas e com pelo menos um filho" formam o maior grupo que pratica aborto no país,segundo estudo realizado pela Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ainda segundo a pesquisa, entre "70,8% e 90,5% de quem opta pelo procedimento já tem filhos". 
 - Mais de 1 milhão de gestações foram interrompidas em 2005.

- Pelo menos 3,7 milhões de brasileiras entre 15 e 49 anos realizaram aborto. Ou seja, 7,2% das mulheres em idade reprodutiva. Menos da metade chega ao Sistema Único de Saúde (SUS).

- De 51% a 82% dos abortos são realizados por mulheres entre 20 e 29 anos. Adolescentes respondem por 7% a 9% das estatísticas.

- Somente 2,5% das interrupções de gravidez ocorreram em um contexto de relações eventuais.

- Mulheres que vivenciam relações estabelecidas (tem marido, companheiro ou namorado) responde pela maior parte dos abortos: 70% dos casos.

- Entre 70,8% e 90,5% de quem decide pelo procedimento já possui filhos.

- Mais de 50% das mulheres que abortaram nas regiões Sul e Sudeste usavam algum método anticoncepcional, principalmente pílulas. No Nordeste, essa porcentagem oscila entre 34% e 38,9%.

- Das adolescentes, entre 60% e 83,7% delas não pretendiam engravidar, e 73% cogitaram a interrupção da gestação, sendo que 12,7% a 40% das garotas tentaram abortar. Entre aquelas que consumaram o ato, 25% voltaram a esperar um filho.

- A maior parte das mulheres que fizeram aborto se declarara católica, com 51% a 82% de prevalência, seguida pela que professa a fé espírita, com 4,5% a 19,2%. Em último lugar estão as evangélicas - entre 2,6% e 12,2%.

- De 50,4% a 84,6% das mulheres que cessaram a gestação utilizaram o medicamento Cytotec. Entre as adolescentes, o método também aparece com destaque: mais de 50% afirmaram tomar o Cytotec ou ingerir algum tipo de chá.

- Nos anos 2000, um estudo entre jovens de 18 a 24 anos mostrou que renda familiar e escolaridade foram fatores associados à indução do aborto na primeira gravidez: quanto maior a renda e a escolaridade, maiores as chances de a primeira gravidez resultar em um aborto. 
Fonte da UFPel: relatório Aborto e Saúde Pública: 20 anos de Pesquisas no Brasil.

Estudos do Instituto Alan Guttmacher (IAG, em www.agi-usa.org) informam que nos países em desenvolvimento ocorrem 182 milhões de gestações anuais. Estima-se que 36% dessas gestações não foram planejadas, entre as quais 20% terminam em aborto.

A América Latina e o Caribe contribuem significativamente para estes números. As estimativas feitas pelo IAG apontam que, a cada ano, são realizados cerca de 4 milhões de abortos clandestinos e inseguros nas duas regiões.

A Organização Mundial de Saúde divulgou dado sobre mortes maternas relacionadas ao aborto. Segundo a OMS, 21% das mortes (cerca de 6 mil/ano) relacionadas com a gravidez, o parto e o pós-parto, nesses países, têm como causa as complicações do aborto realizado de forma insegura.

Segundo o documento Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, publicado pelo Ministério da Saúde em março de 2004, no Brasil 31% de gestações terminam em aborto. Anualmente, ocorrem no país aproximadamente 1,4 milhão de abortamentos, entre espontâneos e inseguros, com uma taxa de 3,7 abortos para 100 mulheres de 15 a 49 anos.
 Segundo a ANDI (Agência de Notícia dos Direitos da Infância), a cada dia cerca de 140 meninas têm a gravidez interrompida. A cada hora, seis adolescentes entram em processo de abortamento.

Ainda segundo o documento, em 2002 foram registrados 53,77 óbitos maternos por 100 mil nascidos vivos, devido a complicações na gestação, no parto ou no puerpério (período de 42 dias após o parto). Entre as principais causas dessas mortes, destacam-se a hipertensão (13,3%), hemorragia (7,6%), infecção puerperal (3,9%) e aborto (2,7%). No entanto, o documento faz uma importante ressalva: para a Área Técnica de Saúde da Mulher, os casos de mortes por abortamento podem ter sido maiores, já que muitas vezes as complicações decorrentes do aborto são registradas como hemorragias e infecções, o que pode camuflar as estatísticas do abortamento.

Dados do SUS indicam que em 2004 foram realizados 1.600 abortos legais em 51 serviços especializados do SUS ao custo de R$ 232 mil. No mesmo ano, ocorreram no SUS 244 mil internações motivadas por curetagens pós-aborto ? entre estes abortamentos espontâneos ou voluntários e feitos na clandestinidade - orçadas em R$ 35 milhões. As curetagens são o segundo procedimento obstétrico mais praticado nas unidades de internação, superadas apenas pelos partos normais.


Veja também: precisa de um aborto?

este post faz parte da blogagem coletiva pela descriminalização e legalização do aborto: http://blogueirasfeministas.com/2011/09/chamada-blogagem-aborto/

domingo, 31 de julho de 2011

Convite para a defesa da tese de doutorado de Nina Caetano

Tenho o prazer de convidá-l@s para a defesa da Tese de Doutorado de Nina Caetano.
ops! Elvina M. Caetano Pereira

Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da USP

TÍTULO: TECIDO DE VOZES: texturas polifônicas na cena contemporânea mineira

ORIENTADOR: Profa. Dra. Sílvia Fernandes Telesi da Silva

BANCA EXAMINADORA:

Profa. Dra. Maria Lúcia Pupo – titular- ECA/USP

Prof. Dr. Antônio Araújo Silva – titular– ECA/USP

Prof. Dr. Fernando Pinheiro Villar – titular - UnB

Profa. Dra. Cecília Almeida Salles – titular - PUC/SP

LOCAL: Sala Egon Schaden (1º andar do prédio principal da ECA/USP).
Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443. Cidade Universitária. Butantã, São Paulo/Sp.

Dia 03 de agosto de 2011 (quarta-feira, dia de iansã), às 14 horas.

domingo, 24 de julho de 2011

sobre como se fabrica uma mulher?

matéria feita por leandro alves, para a tv ufop sobre a oficina como se fabrica uma mulher?
a oficina foi realizada durante o festival de inverno de ouro preto e mariana, de 19 a 22 de julho de 2011, por mim e por lica guimarães.


Mulheres em ação: diálogos obscênicos

artigo publicado no caderno pensar, do estado de minas do dia 16 de julho de 2011.
Confins, 22 de junho de 2011: 14:00 pm. Dentro de 10 minutos, embarcamos para Curitiba, onde iniciaremos nossa participação no Festival do Teatro Brasileiro – Cena Mineira. Integramos o Obscena agrupamento independente de pesquisa cênica e somos eu, Nina Caetano, escritora performer, e as atrizes Erica Vilhena, Joyce Malta e Lissandra Guimarães.
Quando iniciamos, em 2008, a pesquisa que culminou na intervenção urbana Baby Dolls, uma exposição de bonecas, não imaginávamos o fôlego que o trabalho teria, nem os desdobramentos que alcançaria. Éramos quatro pesquisadoras que, desejosas de colocar suas questões como artistas, queriam também colocá-las como mulheres. Em uma sociedade como a nossa, em que se multiplicam mulheres comida (mulher melancia, mulher jaca, mulher filé), em que as mulheres, como propriedades e objetos, são cada vez mais mortas, excomungadas e transformadas em bens de consumo, nosso desejo era produzir uma ação que pudesse desorganizar os estereótipos que se reproduzem em torno da imagem da mulher e da noção de feminino.
Baby Dolls é uma ação performática que tem como eixo de discussão a fabricação da mulher padrão, por meio da composição e transformação de três “bonecas” que transitam entre papéis sociais femininos ainda dominantes na sociedade contemporânea: a mãe, a prostituta, a noiva, a loira, a rainha do lar. Interrompendo o fluxo cotidiano do espaço urbano, essas bonecas terão, posteriormente, seus corpos mortos marcados a giz no chão e prenchidos com escritas.
Fizemos Baby Dolls nas ruas de Belo Horizonte e, posteriormente, em festivais pelo país. Em Recife, havíamos, pela primeira vez, ministrado uma oficina exclusivamente para mulheres e, agora, pelo Festival do Teatro Brasileiro – Cena Mineira, teríamos a oportunidade de levar o trabalho para as terras do sul, intervindo nos espaços urbanos de Curitiba e Porto Alegre e, ao mesmo tempo, ministrando oficinas em presídios femininos. Isso nos permitiria aprofundar outro aspecto da pesquisa que vínhamos desenvolvendo, pois, concomitante às intervenções urbanas que realizávamos desde 2008, a investigação temática do Obscena nos conduzira às mulheres marginalizadas, em especial aquelas em privação de liberdade.
Percebendo as instituições prisionais para mulheres como locais de potencialização das questões do feminino em relação à sociedade patriarcal e capitalista, o agrupamento realizou, de agosto a dezembro de 2009, um projeto com as adolescentes em privação de liberdade do Centro de Reeducação Social São Jerônimo. A partir dessa experiência, foi proposta ao FTB – juntamente com Baby Dolls – a oficina Diálogos Obscênicos, na qual visávamos a construção de um espaço relacional com 20 mulheres de instituições prisionais, em cada estado: um espaço para o afeto, para o toque, para a recuperação de identidades e auto-estima.
Em Curitiba trabalhamos com o CRAF – Centro de Regime Semi-Aberto Feminino, no qual tivemos, por parte das mulheres, uma acolhida surpreendentemente calorosa. Durante quatro dias, buscamos trocar experiências sensoriais, físicas, afetivas e proporcionar a nós e a essas mulheres – que, em sua grande maioria, foram presas a partir do envolvimento de seus companheiros com o tráfico de drogas e alijadas de suas famílias e do contato com seus filhos – a possibilidade de repensar nosso lugar social como mulheres e de exercitar nossa voz por meio da criação de um corpo cênico. Para isso, ao longo da oficina propúnhamos também, a partir de materiais diversos – de revistas e jornais a roupas, meias e maquiagem, de canetas e papéis a gravadores e câmeras – a construção de “objetos” ou de elementos expressivos e simbólicos que pudessem compor esse corpo cênico que atuaria, depois, em uma intervenção coletiva. Em Curitiba, acabamos realizando um grande desfile desses corpos-instalações para todas as mulheres do CRAF, ação novamente experimentada em Porto Alegre.
Na capital gaúcha, trabalhamos no presídio Madre Pelletier, em um espaço frio e inóspito, pouco propício às trocas e ao contato. Nesse presídio, de regime fechado e super lotação, em que muitas das mulheres não tinham sequer um cobertor para passar as noites que chegavam a 2 graus, tivemos que contar, mais do que nunca, com nossa potência feminina. Como salienta Erica Vilhena, “é muito difícil ser mulher e estar presa. Mais que o homem, a mulher sofre por estar afastada dos filhos e da família”. Por isso, mais do que abordá-las como atrizes, buscamos, como relatou Mendonça (jornalista que acompanhou nosso trabalho em Porto Alegre) chegar como mulheres que propunham, com doçura, destrinchar seus corpos a partir da redescoberta dos sentidos, há muito embotados pelos anos vividos nas galerias. Nossas “armas” eram massagens, relaxamento, a experimentação de cheiros e sabores comuns para nós, mas raros para quem vive na carência absoluta de tudo: morango, chocolate, leite condensado... Para nós, obscênicas, a experiência em ambas as instituições, foi transformadora.
Quanto às intervenções de rua, foi muito potente a troca que tivemos, principalmente, em Porto Alegre. Nessa cidade de povo aguerrido não passamos incólumes. A ação provocou reações, discursos exaltados, indignações e concordâncias. O chão liso de lajotas da maior parte das calçadas foi, para mim em especial, um presente: como uma lousa, o chão recebia os desenhos dos corpos mortos e a minha escrita amorosamente. 
Confins, 03 de julho de 2011: 22:34 pm. Foram dez dias de um trabalho maravilhoso e intenso. Agora, só quero ir para casa. 
                                                                                                       


Maiores informações sobre o trabalho de pesquisa do agrupamento Obscena em www.obscenica.ning.com e www.obscenica.blogspot.com .

sexta-feira, 17 de junho de 2011

só a antrofagia nos une (guest post)

Ctrl C Ctrl V

por Marina Arthuzzi, sexta, 17 de junho de 2011 às 16:42
1 - Orlando Orube escreveu sobre nós. Não concordou com a Primeira Campainha ter ganhado o prêmio de melhor texto inédito. (segue no final da nota, o texto dele). Estou respondendo...
Caro senhor Orlando Orube, viva a diversidade, a diferença e a liberdade de expressão, o senhor tem todo o direito de manifestar sua opinião. Nós também. Segue a nossa:
2 - Primeiramente..... 
A Primeira Campainha gostaria de agradecer ao SINPARC e demais membros da comissão de avaliação pelo prêmio de Melhor Texto Inédito concedido na última quinta-feira.
A respeito das considerações feitas pelo Sr. Orlando Orube à presidência do sindicato, cabe apenas o seguinte esclarecimento:
O agradecimento mencionado na cerimônia de premiação diz respeito à linguagem e pesquisa dramatúrgica realizada pelo coletivo - plagicombinação de linguagens e mídias - um termo originalmento utilizado na música pelo multiartista Tom Zé (que também foi mencionado durante o agradecimento) e a um pequeno trecho do texto vencedor:
"Eu estou com você Marina Viana. Eu estou com você Mariana Blanco. Eu estou com você em Belo Horizonte. Eu estou em Belo Horizonte, onde o sertão não virou mar, o mar não virou sertão, onde se desfaz uma panela para criar outra mas mesmo assim a gente senta no cimento."
Não houve em nenhum momento tentativa de ridicularizar a premiação ou desrespeitar a comissão que demonstrou tamanho reconhecimento ao nosso trabalho.
Esperamos com isso esclarecer e dissipar qualquer interpretação equivocada de nosso discurso de agradecimento.
Atenciosamente,
Primeira Campainha
Mariana Blanco - Marina Arthuzzi - Marina Viana
Nosso Manifesto entusiasmado:
SOU MOLEQUE SIM!
MEU JEANS É RASGADO SIM!
SOU A DAMA INDIGNA DAS ALTEROSAS, MEU SENHOR!
SINTO SE TE AFRONTO, SOU DE OUTRO TEMPO, CRESCI EM OUTRO TEMPO, ESCREVEMOS EM OUTRO TEMPO!
EU ESTOU EM BELO HORIZONTE E FAREI BARULHO O QUANTO PUDER.
Muitos amigos meus saíram desta cidade, mas nós batemos o pé. Vamos ficar aqui e bater  panela desde as alterosas. As idéias estão aí. Ovo de Colombo. Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Ditadura nunca mais! A vida não se resume em festivais!
No dia 15 de Junho de 2011, o primeiro prêmio do SINPARC dos anos 10, a minha geração esteve no palco. Muitas vezes. Gente com quem convivi, estudei, trabalhei, gente que se formou na escola de teatro da UFMG.

Portanto é  inegável a importância que esta escola, (tão jovem quanto nós) tem para esta cidade de horizontes montanhosos onde gorjeia Lô Borges e eu também!
Vocês não estão entendendo nada! Diria Caetano. Bundamolice! Diria Lobão.
Sou só uma moça latindo à mera cana sem dinheiro e sem banca, e sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 2016, mas deixa eu cantar que é pro mundo ficar odara, e tem gente que grita que tudo vai dar pé! Mas ah! VAI DAR PÉ... e eu não vou parar, não vamos parar, estamos aqui. Estamos em Belo Horizonte!
E quem será esse desgraçado dono dessa zorra toda? Tem dono? Num tem dono não!
Todo mundo tem arquivo! O cntrl c cntrl v quem faz é você! Por um pensamento auto sustentável: vomite e coma de novo.
Primeira Campainha                                       
Ano 1 da deglutição do B(ob)ispo S(ponja)rdinha

4 - Resposta de nossa Querida amiga Júnia Pereira ao Senhor Orlando Orube:
Caro Orlando,

Tomei conhecimento de suas considerações sobre o Prêmio
Usiminas/Sinparc e tomo a liberdade de lhe responder, pois acredito no
debate de idéias.
Primeiramente, gostaria de dizer que os grupos e artistas jovens
também são profissionais, mesmo que não tenham um grande passado. É
seu direito dizer que, na sua opinião, dar um prêmio a quem está
começando não é legítimo, e eu entendo a sua colocação que é
pertinente sob determinado ponto de vista, mas acho uma grande ofensa
você nos excluir, em seu texto, da categoria de profissionais da nossa
área. Se trabalhamos ou não com criação de personagem, e que tipo de
metodologia utilizamos para criação de texto, é uma questão estética
que você pode até não gostar, mas não tem o direito de nos excluir da
categoria, ok? Nós também gostamos de respeito. Tenho certeza de que
as artistas que ganharam o prêmio de Melhor Texto não quiseram ofender
ninguém com o seu discurso. Dizer que utilizaram “Ctrl c, Ctrl v” como
procedimento de criação não é uma ofensa a ninguém que trabalha de
outra forma. Se você se sentiu ofendido é porque não consegue
reconhecer o direito à diferença, o que é lamentável.
Em segundo lugar, gostaria de dizer que na minha opinião eu não estava
mal arrumada. Estava de calça jeans, tênis e blusa de frio. Ainda bem
que não fui de salto e vestido porque fui obrigada a sentar no chão,
já que, embora estivesse de posse do convite do SINPARC, pois meu
espetáculo estava indicado a um prêmio, não havia lugares para eu
sentar, pois os lugares constantes do meu convite foram ocupados por
outras pessoas. Isso sim eu achei uma grande falta de glamour. Mas eu
não estou reclamando disso, porque eu não ligo exatamente a mínima
para o glamour, o que na minha humilde opinião é uma coisa de uma
elite opressora. No entanto, eu respeito quem liga. Por isso, por
respeito a quem liga para isso, peço desculpas se incomodei alguém por
ter vibrado, por ter rido alto, por ter me manifestado efusivamente em
alguns momentos durante a premiação. É a primeira vez que participo do
prêmio e não imaginei que fosse um evento tão formal e talvez o fato
de ter sentado  no chão tenha me induzido à informalidade. Peço
desculpas então se incomodei e devo ter incomodado pois mesmo não
tendo ganhado nenhum prêmio, fazia parte do que você chamou de
“molecada mal arrumada”, mas esclareço sinceramente e com todo o meu
coração que jamais o meu riso foi de deboche a qualquer um dos
artistas presentes, a quem respeito profundamente como colegas de
profissão.
Aproveito a oportunidade para convidá-lo a assistir o meu espetáculo
It, que esteve em cartaz no seu teatro durante a Campanha de
Popularização, e hoje está na FUNARTE MG até o dia 26 de junho, quinta
a sábado 20h e domingo 19h. O texto é meu e de Amanda Dias Leite, é
inspirado em Clarice Lispector e em outros autores, tendo como um dos
procedimentos de criação a colagem, e a direção de cena é de Marina
Viana.
Abraços


Júnia Pereira.



4 - Texto de Orlando Orube
Considerações sobre o Premio SINPARC:

Estou triste, fiquei triste e não sei por que todo mundo engoliu o
deboche das moças que obtiveram o premio de dramaturgia adulta.

Sinto me isento para comentar, pois esse ano eu particularmente não
concorri a nada, e mesmo que o tivesse feito acho que não ficaria
calado.

Ir ao palco e jogar na cara de todo o mundo que o texto foi o premio
ao “Ctrl c, Ctrl v”, admitindo que o texto foi tudo colado de diversos
textos de outros autores, foi a maior afronta que já vi em muito
tempo. (E o premio deveria ser revisto pela comissão).

Acredito que os textos que não tem um autor reconhecido
individualmente ou inserido no meio de um grupo de criação coletiva
não devam concorrer a esse premio a exemplo de outras categorias, e
sim ao premio revelação, já que ele agora é multidisciplinar.

O premio SINPARC é e deve ser uma homenagem a produção profissional e
aos profissionais que de ela participam, e por tanto em todas as
categorias além do desempenho eventual de um artista deve-se respeitar
também o passado de todos e dar um peso a isso, não é legal dar um
premio a quem ainda não demonstrou nada e pode ter tido um dia feliz
ou ser simplesmente ele o que está no palco, sem criação nenhuma de
personagem.

Outra coisa:
Longe estão às datas em que o premio tinha glamour, hoje assistimos a
um bando de moleques mal arrumados debocharem (até politicamente) de
todos nós. E o pior é que ninguém fala nada, Rômulo, me ajuda cara,
você é um guerreiro, não deixa a coisa desandar por conta de uma
democracia falsa e risonha que em nada ajuda a nossa instituição.
Assisti na rua após o evento essa molecada morrer de rir de nós, que é
isso!

Respeito é bom, e eu gosto dele em qualquer situação.

Orlando Orube

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Bloguemus quae sera tamen


nos dias 10 e 11 de junho será realizado,  em belo horizonte, o Bloguemus Quae Sera Tamen: o primeiro encontro de blogueiros progressistas mineiros e vou integrar, convidada pela querida cynthia semiramis, uma mesa sobre cultura e ativismo no sábado, às 14 horas. a idéia é não só nos prepararmos para o encontro nacional dos blogueiros progressistas, que será realizado em brasília, mas também começarmos a juntar forças para a ação.
considero muito potente a percepção dos espaços das redes sociais como possibilidade de fabricação de "discursos sediciosos", rementendo à tradição mineira de inconfidência.
vejam maiores informações no link:
http://cynthiasemiramis.org/2011/06/05/blogueirs-de-minas-gerais-realizam-o-evento-bloguemus-quae-sera-tamen/

para a programação, vejam o link:
http://bloguemusqstmg.blogspot.com/2011/06/blogueiros-mineiros-realizam-bloguemus.html



sexta-feira, 27 de maio de 2011

como se fabrica uma mulher?

foto: nina caetano

foi realmente especial o workshop como se fabrica uma mulher? que lissandra guimarães - companheira do obscena agrupamento independente de pesquisa cênica  - e eu aplicamos para um grupo de 15 mulheres, alunas do curso de artes cênicas da ufop, durante a vii semana de artes, evento realizado pelos alunos do deart/ufop.
pensado em um formato intensivo, de 12 horas distribuídas em dois dias de atividade, o workshop possibilitou a experimentação de intervenções feministas na cidade de ouro preto, nos dias 23 e 24 de maio, as quais visaram discutir o modelo de feminino vigente na sociedade brasileira contemporânea. como pontapé inicial das atividades, decidimos apresentar nosso trabalho às mulheres participantes em sua realização prática, realizando uma intervenção no centro histórico da cidade, classificação zoológica da mulher.

foto: paula reis vianna

a partir do que foi experimentado e visto, discutimos o modelo de mulher e a sua "fabricação" em nossa sociedade como algo naturalizado. ao problematizar esse lugar, buscamos levantar as possibilidades de uma atuação política gerada a partir de nossas questões e críticas. daí, partimos para a discussão da proposta de ação a ser realizada nessas doze horas de trabalho e solicitamos, às participantes do workshop, os materiais que serviriam de base para a produção de ações por meio das relações do corpo com espaços e objetos associados ao universo da mulher.
à tarde desse primeiro dia (23), propusemos um trabalho sensorial, a partir de objetos relacionais, e uma prática de deriva pela cidade, para levantamento de uma cartografia afetiva por parte delas. o trabalho as sensibilizou para as possibilidades de ocupação na intervenção que realizaríamos no dia seguinte.
no dia 24, já com os materiais que elas e nós trouxemos - revistas, jornais, objetos e roupas - construímos as mulheres painel e, à tarde, já com os corpos montados, partimos para a "invasão" da cidade.

foto: nina caetano

as mulheres participantes se mostraram potentes, cada uma em sua individualidade e criação, e potencializadas pela força de uma ação coletiva.

foto: nina caetano

seus corpos, em confronto com a cidade e o cidadão ouropretano, causaram um acontecimento no qual estranhamento e ludicidade se encontravam.

foto: nina caetano

para nós e para elas, repensar e criticar as relações que são estabelecidas com o corpo feminino em uma sociedade machista como a nossa, na qual somos vistas ainda como objetos de propriedade masculina - como "brinquedos de homem" como afirmava o recorte de uma matéria de revista ostentado por mariana hippert, uma das mulheres em ação (ver foto logo acima) - produziu mergulhos que, com certeza, ainda vão encontrar reverberações mais profundas no que diz respeito às questões relacionadas ao nosso eu social e ao nosso papel, em questões - algumas adormecidas e esquecidas -  também associadas à nossa atuação como cidadãs e como artistas.
 
foto: nina caetano

esse foi só o início...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

FECHADA PARA BALANÇO

olá! tem estado "fechada para balanço" desde fevereiro, em função da escrita de minha tese de doutorado.
mas volto à toda depois de 15 de maio!
aguardem... aguardo.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

meninas massacradas

hoje estou de luto. chocada.
procurando entender a tragédia que aconteceu ontem em realengo, rio de janeiro. um rapaz de 23 ou 24 anos invadiu uma escola e matou 12 crianças, deixando outras 13 feridas.
procurando entender também a cobertura irresponsável e sensacionalista que a mídia fez/faz do caso (ironicamente, ontem também foi o dia do jornalista brasileiro). já o chamaram de terrorista islâmico, já disseram que tinha hiv. já fizeram do caso o nosso columbine.
mas essa mídia não se lembra de um detalhe. o que ele tinha era ódio contra mulheres.
um sujeito que invade uma escola e mata meninas. sim, meninas, nas quais ele atirou para matar, tem ódio. mas não é um ódio generalizado, contra todo o mundo. wellington não atirava a esmo.
wellington escolheu as vítimas: meninas bonitas. ele mirou em suas cabeças e atirou. entre as 12 crianças mortas, 10 eram meninas.
seu ódio era contra mulheres. isso tem nome: misoginia.
pode ser que ele tivesse problemas mentais. pode ser que ele tivesse treinamento militar. pode ser que fosse religioso (pois em sua carta, ele expressa claramente o desejo de se manter puro e perdoado por deus. mas não por alá). pode ser que ele sofresse bullying na escola.
com certeza, wellington tinha uma mente carregada de imagens de violência que essa mesma mídia que faz desse caso um circo, adora divulgar.
mas, acima de tudo, ele tinha ódio.
sim, esse foi um crime de ódio. como são os crimes contra judeus, negros ou homossexuais.
um CRIME DE ÓDIO: feminicídio. é preciso dar nome aos bois.

sexta-feira, 25 de março de 2011

classificação zoológica da mulher

Mulher vaca. Nome científico: femina docilis.

foto: nina caetano

Seu habitat natural é o lar, o ambiente doméstico. Adora passar, limpar, cozinhar e cuidar, mesmo sem vontade.O temperamento dócil das mulheres vacas associado à sua indiscutível utilidade econômica, fez da domesticação da espécie a mais antiga da história da civilização. Estima-se que já eram domesticadas pelos homens das cavernas.

Além da força de trabalho, esse animal é extremamente útil porque dele se aproveita tudo: você pode comer a carne e até arrancar o couro que a mulher vaca não reclama. Além disso, ela tem como qualidade a capacidade de tudo suportar, sem frescura. Carga, peso, culpa.

Cuidado! Não alimente com idéias, pode ser perigoso.



Mulher cachorra. Nome científico: femina vulgaris.

foto: nina caetano


Seu habitat natural é a rua, o bar, o baile funk. Normalmente tem hábito noturno, mas há espécies que funcionam dia e noite.

É um animal extremamente sociável, aceitando seu dono como chefe da matilha. Aliás, essa espécie precisa de dono para se sentir feliz.

Bastante utilizada como bichinho de estimação e enfeite de namorado, a mulher cachorra aceita bem a coleira, que usa como se fosse um colar de diamantes.

A mulher cachorra é relativamente dócil e leal. Se bem adestrada, ela lambe e até balança o rabinho. Mesmo sem vontade.

Para o adestramento, pode ser necessário o uso de tapinhas. Mas não se preocupe porque, para a verdadeira mulher cachorra, um tapinha não dói.

Cuidado! Não alimente com idéias, pode ser perigoso.

sábado, 19 de março de 2011

só muda de endereço



Coleção escritas performadas: só muda de endereço
(por nina caetano)
Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas. Mulher princesa. Mulher boneca. mulher dócil muda. mulher rosa. mulher doce. Mulher sobremesa. Mulher de cama e mesa. Mulher para desfrute. Mulher melancia, jaca, melão. Mulher Filé: "Chega de fruta. Homem gosta é de comer carne".
Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas. Sorriso. Batom Boca Beijo. Faca Tiro. Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são destruídas. 70% das mulheres mortas no país são vítimas de seus namorados, noivos, maridos. Amar. Casar. Cuidar. Compreender. Perdoar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Transar. Mesmo sem vontade. Morrer.
Mesmo sem vontade.
Mulher, uma obra em construção. Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você. Depiladores hidratantes sutiãs rolinhos pregadores talheres gleidy sache vassoura escova progressiva inteligente. Servir bem para servir sempre. Mulher. Ser humano do sexo feminino capaz de conceber e gerar outro ser humano e que se distingue do homem por essa característica. Mãe. A mulher em relação ao marido. Esposa. Plano de saúde, férias, filhos. Feia. Gorda. Jogada fora. Mulher, parcela da humanidade.
Mulher da vida. Meretriz. Mulher à toa. Meretriz. Mulher da rua. Meretriz. Mulher da zona. Meretriz. Mulher da comédia. Meretriz. Mulher. Meretriz.
Engulo tudo sem frescura.
A gente pensa que é mulher e é só fêmea, bichinho de estimação. Gatinha. Cachorra, cadela. Vaca, galinha, piranha. Filé. Gostosa. Quente. Pronta para consumo imediato. 100% completa. Samy, 18 aninhos. Loirinha e sapeca como você gosta. Adoro beijar. Mesmo sem vontade.
A cada 2 segundos, uma boneca Barbie é vendida em alguma parte do mundo. A cada 15 segundos, uma mulher é espancada no Brasil. Como você gosta. A cada ano, No Brasil, são feitas 629 mil plásticas. Silicone. Lipoaspiração. Peito. Bunda. Coxa. Como você gosta. Drenagem linfática. Jet bronze. Botox. Diet. Light. In. Out. Enterrada menina de 14 anos encontrada morta e estuprada. Arregaçada. Como você gosta.
Engulo tudo, sem frescura.
Sarada. Turbinada. Siliconada. Preparada. Espancada. Excomungada. Esquartejada. Jogada pros cachorros. na rodovia. na lagoa. na lixeira. Morta. Como você gosta.
Destruir. Matar. Aniquilar. Dar cabo de. Ex-terminar.
Eliza, 24 anos, esquartejada e jogada para os cachorros a mando do ex-amante e pai de seu filho. Leonice, 40 anos, 13 facadas, ex-companheiro. Maria Islaine, 31 anos, ex-marido. Ele apontou a arma para ela e atirou 7 vezes, sem que ela reagisse. Maria de Jesus, 28 anos, 3 tiros, ex-marido. Luciene, 24 anos, 2 tiros, ex-namorado. Polyana, 23 anos, 18 facadas, ex-marido. Eloá, 15 anos, ex-namorado: morta com 1 tiro na cabeça, sem que ninguém reagisse. Janine, 16 anos, grávida de 8 meses, morta pelo namorado com pelo menos 42 facadas, sem que ela eu você. sem que ninguém reagisse.
Amar. Sacrificar. Padecer. Parir. Amar. Amamentar. Cuidar. Limpar. Amar. Jogar fora. É tudo igual, só muda de endereço.

sábado, 12 de março de 2011

a mãe é culpada de tudo: elaine césar

essa história está acontecendo agora, nesse país. e o impacto enorme muito que me causa é porque o caso de elaine césar é emblemático de um posicionamento atávico que vejo em notícias de jornal diárias, em comentários cotidianos. resumo em: a culpa é da mulher. talvez, até mais especificamente, a culpa é da mãe. porque ama demais. porque não dá amor. porque não educa direito. porque separou. porque não pensa nos filhos. porque casou de novo. porque fica junto desse aí. porque trabalha fora. porque é egoísta. porque não trabalha e depende do marido. e cada expressão desse pensamento é apontado como um julgamento, como uma sentença: a mãe não é capaz de criar o filho que carregou 9 meses no ventre, alimentando-o de sua carne e sangue.
fiquem com elaine. acompanhem sua história e sigam seu blog (idéia, bem como o guest post de elaine, copiada do blog solteiras e descoladas).
tomem atitudes, cada uma: divulguem, criem cartas de repúdio, mobilizem outras pessoas.



Meu nome é Elaine Cesar.
42 anos.
Decidi escrever como uma forma de expor uma realidade que estou vivendo e sei que várias mulheres e homens estão passando o mesmo nesse momento.

Esse momento acabou me levando no desejo de produzir um documentário_filme sobre um dos temas que estou vivendo: Alienação Parental.
É aqui nesse espaço que vou, livremente, fazer meu caderno de produção e estender meu diário a essas paginas.
Não quero que esse blog se torne um espaço para defesa, e sim um espaço onde se possa também trocar experiências com pessoas que já viveram ou vivem situações ligadas a alienação parental, falsas acusações de abuso sexual e implantação de falsas memórias, um crime muito comum que a sociedade e parte da justiça não estão preparados para enfrentar.

Hoje vivo uma gravidez de risco de 5 meses.

Hoje vivo um Câncer Linfoma Não-Hodkin das Células T num estágio avançado.

Hoje vivo uma separação litigiosa onde fui acusada falsamente de ter abusado sexualmente de meu filho de 3 anos de idade.
Fui acusada de ser viciada em drogas, portanto incapacitada de criar uma criança.
Hoje vivo um processo na justiça, também parte dessa separação onde um desembargador decidiu que por trabalhar num teatro como Oficina não sou capacitada de criar um filho.
Hoje só posso ver meu filho a cada 15 dias, sem poder pernoitar e com visitas vigiadas.
Hoje vivo a maior esperança que tudo isso é só uma passagem.
Vivo um grande amor.
Vivo uma grande luta que esta sendo um sucesso contra esse câncer e a certeza que logo Théo estará de volta nos meus braços junto com Rudá, esse bebezinho que segue guerreiro dentro de mim, nos alimentando nessa grande batalha que é a vida.

Desde que recebi de um Oficial de justiça um documento com acusação de PEDOFILIA, meu corpo murchou. Naquele dia, era uma quinta feira em dezembro, perdi todas as minhas forças, pela segunda vez estavam me roubando meu filho. Um papel cheio de inverdades com tantas acusações falsas.
Ali, eu morri. Poucos dias depois soube do câncer.
Achei que tudo aquilo era um grande engano, ainda mais vendo que a acusação estava vindo da pessoa com quem dividi alguns anos da minha vida, que morou comigo por esse tempo e que juntos fizemos nosso maior tesouro, o menino Théo.
A acusação foi feita pelo pai do meu filho; Rafael Gonçalves e aceita pelo tribunal de justiça que segue um código antigo que “protege” a criança de pais pedófilos, imediatamente dando a guarda para o “autor do processo”.

Até hoje não fui chamada para depor, até hoje nenhum assistente social ou psicólogo vieram conhecer minha casa, até hoje ninguém relacionado a vida de Théo, escola, amiguinhos, vizinhos foram contatados.

Toda acusação foi aceita em cima do discurso e um ex-marido que não aceita nossa nova condição. E que desde então não aceita falar e nem olhar pra mim, nem sequer pra falar de nosso filho.
Até hoje acredito que foi só um pesadelo, mas não foi.
É realidade e uma realidade de que não faço parte sozinha.
É um ato desesperado feito por pessoas fracas que não tem forças de assumir a realidade nova, que vestidos de uma fantasia paternal usam seus filhos como armas e não percebem que tudo isso ataca diretamente a personalidade de uma criança que na verdade só que ser amada e respeitada.
Hoje, estou mais forte em tratamento e focada nessa luta de ter meu filho de volta e para isso tenho que estar mais viva que nunca.

Blog da Elaine: http://elainecesar.blogspot.com/

quarta-feira, 9 de março de 2011

Saia de bruxa hoje (Maíra Kubík Mano)

Do blog: http://viva.mulher.blog.uol.com.br/


Não, nada de sair por aí fantasiada de princesa, noiva ou prostituta. E nem pense em aparecer de cigana ou palhaça! Se eu te encontrar de odalisca, juro que viro a cara.

A idéia é a seguinte: pegue um chapéu preto ou roxo bem alto. Uma capa vai bem também
– pode ser das mesmas cores, para ficar combinando. E uma vassoura, sempre tem que ter uma vassoura. Se quiser, ponha um nariz comprido e disforme, afinal, nossas homenageadas eram feias de dar dó pelo menos segundo os desenhos animados da Disney. Um toque especial. Ah, e desenhe uma verruga, fundamental!

Saia, enfim, de bruxa! Por quê? Porque hoje é 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, e essas libertárias ousadas foram um pedaço da nossa história rumo a uma sociedade mais igualitária. Queimadas nas fogueiras da Inquisição sem piedade simplesmente porque estudavam a natureza e exerciam a medicina alternativa, elas entraram para os anais como forças maléficas. Óbvio: eram um símbolo do poder da mulher e isso não poderia ser tolerado.

Mas agora sim. Dê gargalhadas sinistras por aí. Você pode. E deve!