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sábado, 1 de março de 2014
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
sábado, 1 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
sábado, 25 de janeiro de 2014
conto pornográfico
(uma imitação barata de Hilda Hilst)
o dia em
que nasci. eu tinha 13 anos e era virgem. meu pai, um velho bêbado e babão,
resolveu me vender antes que fosse tarde demais. como ele já tinha tirado o
cabaço das minhas duas irmãs (e o destino delas tinha sido a prostituição, sem
que ele nada lucrasse com isso) ele resolveu me poupar e, dessa vez, levar
algum lucro com a minha rara virgindade me vendendo para o maior bordel da
cidade.
o dia em
que nasci. eu tinha treze anos e meu pai resolvera me vender apesar dos meus
peitos mal empinarem a blusa.
quem sabe?
meu pai pensou. ela tinha uma pele bonita, macia. as coxinhas grossas, uma
bunda redonda, carnuda. A carne tenra... os peitinhos. Os peitinhos... meu pai
resolveu dar-me um banho.
éramos
pobres e o banho tomávamos em uma bacia de metal. o banheiro era um quadrado de
cimento sujo e quebrado, coberto por uma telha de zinco que fazia dali um
inferno. meu pai encheu a bacia de água morna, me arrastando até ela. minha
blusa, um pouco rasgada, deixava entrever o bico do seio. a respiração do meu
pai se acelerou. os olhos tinham um brilho mau. ele puxou minha calcinha,
arrancando minha saia avidamente. eu estava imóvel e meu pai, diante do meu
corpo nu, ajoelhou-se como diante de uma santa. abriu as minhas pernas e roçou
os dedos pelo meu grelo. pediu-me que pegasse a caneca e jogasse água no meu
corpo. que a deixasse correr. ele a recolheria ali, no encontro das coxas.
comecei a sentir um calor me invadindo. ele lambeu a água, devagar. Esticou a
língua e lambeu de novo, abrindo caminho entre os meus pêlos. Meu corpo bambeou
e ele agarrou minha bunda, invadindo ainda mais minha vagina como um cachorro
sedento, a língua de fora, os olhos saltados a me lamber também. e gemia como
uma criança diante do peito da mãe. suas mãos agarravam minha bunda como se
fossem duas redondas luas. a língua misturava fogo à água. Sem nem sentir eu
empurrava o meu quadril contra seu rosto num movimento instintivo de prazer.
Ele acelerou as lambidas mais e mais mais mais mais mais... gozei. Meu corpo
bambeou mais uma vez.
meu pai
abriu a calça...
... ainda
não entendi que graça tem ficar lendo sobre a vida das outras pessoas! eu, por
mim, nunca gostei nem de falar da vida alheia.
sabe,
leitor, estive pensando...será que eu não devo começar me apresentando
primeiro? Afinal, que graça é que tem... calma, leitor ansioso!
cerre um
pouco a cortina. pediram-me para contar a minha vida e é o que vou fazer! mas
se você nem souber de quem se trata, que graça tem querer dar uma espiadinha
atrás da minha cortina?! credo, que pressa!
... não
tema, meu gostoso leitor, tentarei ao máximo não ser “literária” como Sade.
pois cá muito entre a gente, ele, pelo menos no que concerne à escrita, era um
tanto monótono... já sei, já sei! para um conto pornográfico, eu também já
estou sendo bem – com o perdão da palavra antiga – caceteadora... (desculpe, não resisti ao trocadilho).
Pois então,
prepare-se, meu caralheitor!
o passeio
será longo, cheio de paisagens inesperadas. sugiro que fique mais à vontade.
desabotoe a camisa, tire os sapatos... deixe mesmo a calça entreaberta. como eu
disse, as paisagens podem ser inesperadas...
meu pai
abriu a calça. foi o primeiro caralho que vi. grosso. grande. e sujo. ele lavou
a imensa pica vermelha na bacia e depois se ergueu, me puxando pelo cabelo. fez
com que me ajoelhasse. diante dos meus olhos, a cabeça luzia. uma gota
brilhava. lambi. meu pai gemeu. lambi de novo, como quem lambe um gostoso
sorvete. meu pai de olhos fechados agarrava a minha cabeça. eu chupava, lambia,
sorvia. meu pai me chamava de puta gostosa safada piranha enquanto jatos de
porra inundavam minha garganta.
e esse foi
meu nascimento.
então, ele
vestiu-me uma roupa branca e limpa e me levou para o maior bordel da cidade.
era uma casa grande e suntuosa, construída em estilo neo clássico (coisa que,
evidentemente, eu não sabia naquele momento. A cultura fui adquirir bem mais
tarde). colunas cercavam a entrada. a casa era branca como eu.
quando
entramos, a primeira coisa que me impressionou foi o forte cheiro de coxas que
pairava naquele lugar. e em seguida as luzes. coloridas. difusas. tudo ali era
difuso. contra esse fundo, Madame se destacava: era alta, loura e majestosa. o
rosto era muito maquiado e ela toda cheirava, o perfume misturado ao creme e ao
pó de arroz. as pernas eram longuíssimas sobre o salto incomensurável. apesar
disso, Madame não nascera mulher. nascera homem. sim, a cafetina daquele bordel era uma
travesti.
quando
Madame me viu sorriu. para o meu pai ela fez cara feia, não gostava daquele
velho bêbado e sujo na sua casa de fantasia. ela pagou, ele foi embora e me
deixou.
nunca mais
o vi.
Madame me
pegou pela mão e me conduziu escada acima. louro ou moreno?
moreno...
eu queria sentir meu primeiro homem bruto dentro de mim. nada de amor. nada de
refinamentos. que fosse rico! muito. Madame sorriu novamente e me disse que eu
seria a rainha daquele bordel. Depois abriu a porta do quarto dela, fazendo-me
entrar em um paraíso cor-de-rosa. Havia duas moças lá dentro, as duas também
muito jovens. Uma delas, loirinha e magra, empurrou-me contra o colchão
macio... Madame tirou, ela mesma, meu vestido e passou óleo sobre meu corpo,
perfumando-me. A moça negra, de ancas largas e peitos estupendos de tão duros,
trouxe uma caixa de jóias de fantasia, da qual madame tirou pérolas tão
virginais quanto eu. sobre o meu corpo, somente um pano branco.
Madame
então abriu minhas pernas e prendeu meus pés aos pés da cama. eu gosto de
chupar mulher, sabia? meus peitos imediatamente eriçaram, machucando o
tecido. o gostinho ácido das virgens. atou minhas mãos à cabeceira. eu
não sentia medo. sentia sua respiração quente invadindo meus pêlos. o cheiro
de cabelo de milho...
e esse foi
o meu batismo.
quando
terminou, Madame me desamarrou depois lavou a boca e retocou o batom. lavou,
ela mesma, a minha buceta molhada. Então foi para a sala e escolheu um
fazendeiro, um homem acostumado a comprar tudo como se tudo fosse novilhas.
Madame vendeu-me cara, afinal eu era produto raro.
o homem era
baixo, forte, atarracado. a pele era sebosa, suada. os olhos, miúdos, tinham um
brilho maldoso como os olhos de meu pai. vendo-me nua sobre a cama, limpa,
linda em meu pano transparente, ele subiu sobre mim e abriu as minhas pernas.
pôs o pau curto e grosso dentro da minha vagina apertada, rompendo meu hímen
com facilidade. o homem ficou ali, metendo em mim até gozar. apertava meus
peitos, babava neles. beliscava um pouco, com certa maldade. e gozava.
resolvi
surpreendê-lo.
virei-me de
costas, oferecendo-lhe a bunda redonda. ele arregalou os olhos, espantado.
então, eu fiquei de quatro, como uma égua, e como uma égua no cio rocei as
minhas carnes brancas na sua pica que estourava de tesão. ele sentia a porra
invadir cada centímetro do seu pau, enquanto me agarrava pelas ancas. dava uns
tapinhas na minha bunda, falava bunda gostosa minha potranca e metia a vara no
buraco quente, gostoso, apertado do meu cu. meu rego latejante engolia apertava
a cabeçorra vermelha do seu pau. ele gozou.
depois
dessa noite, tornou-se meu amante oficial e financiava todos os meus luxos e
extravagâncias. e eu as tinha muitas. como uma menina caprichosa, eu não
cansava de pedir. gostava de dar festas estrondosas, verdadeiras orgias, para
todo o bordel. como uma rainha, eu tomava banhos de champagne e andava nua,
sobre um cavalo, pelos jardins do bordel, além de financiar alguns pintores dos
quais era musa e amante.
O leitor
bem tava gostando, né? Desse linguajar meio século dezoito salvando a dignidade
das minhas memórias... é o espírito livresco querendo encarnar outra vez!
claro, nada disso é verdade. ou, pelo menos, quase nada. mesmo sendo puta eu
gostava mesmo era de ler e essa era uma das poucas extravagâncias que eu tinha.
Madame tinha me ensinado o gosto pelos livros e eu os tinha aos montes e de
todos os tipos. Eu era uma devoradora e o comprador de novilhas gostava de mim
assim, presa ao quarto e em delírio eu inventava orgias, banhos de champagne e
vida de princesa. vá lá, eu era a teúda e manteúda do fazendeiro. tinha jóias,
dinheiro. mas era uma caipira de treze anos que acabara de entrar para a vida.
o
fazendeiro tinha se viciado em comer o meu cu. todos os dias, como um bom padre
Sádico, ele vinha ao bordel enfiar a pica nas carnes brancas da minha bunda. às
vezes, uma boa chupada me salvava. era outra das minhas especialidades. fazia
questão de tirar sua roupa e ia lambendo seu corpo, traçando uma linha de fogo
até o pau. caralho em riste. após pesar suas bolas com minha língua, eu
enfiava, sem aviso, aquela vara grossa em minha boca entreaberta. a cabeça,
descoberta, estava à minha mercê e eu a apertava, suavemente, entre meus
lábios. de repente, eu enfiava aquela verga toda na minha boca. a boca,
apertada como uma buceta quente, sugava sugava. para em seguida torturar cada
centímetro de sua pica latejante com lambidas bem... bem vagarosas... com a
desculpa de prepará-lo para a “empreitada”, muitas vezes fiz com que gozasse
ali mesmo, na minha boca. uma boa parte das vezes, no entanto, meu cu era
agraciado.
como eu era
muito nova, Madame não queria me ver “arrombada” e deu um jeito de me arrumar
outro cavalheiro. dessa vez ela não pediu minha opinião, resolvera me arrumar
um velho pacato e sem extravagâncias. era um banqueiro, um homenzinho magro e
sorridente, sempre com um ar de quem pede desculpas. eu tinha uma vontade
imensa de maltratá-lo e ele parecia gostar, pois jamais reclamava.
habitualmente,
ele aparecia no fim da tarde e nesse dia resolvi esperá-lo com uma surpresa. o
entregador de bebidas do bordel era um jovem negro, impetuoso como um garanhão.
quer me comer de graça, sem pagar nada?
ele, com o pau endurecido roçando minha bunda, me seguiu até o quarto. sem
paciência, rasgou minha roupa. chupava os meus peitos, era voraz, bruto e
aquilo me agradava. abri as pernas. o negro afastou minha calcinha de lado e
meteu a imensa pica roxa na minha buceta molhadinha. a pele negra contrastava
com a brancura das minhas coxas. ele me mordia, chupava, metia. eu gozava
gozava gozava sem fim.
ele me
virou de costas, lambuzou o pau grosso, cheio de veias, assombroso, assustador,
com sua saliva e abriu no meio a minha bunda, branca como uma lua. eu gemi de
medo. ele encostou a cabeçorra. a porta se abriu. impaciente com a interrupção,
ele olhou para a porta. eu disse: entra.
pode entrar...
enquanto o
negro entrava no meu cu ardente, o cavalheiro magrinho entrava no quarto,
mortalmente pálido.
O leitor
deve admitir: o trocadilho é tão perfeito que impede a continuidade da obra. Entra, pode entrar... e eis que a porta
se fecha bem na minha cara.
O que pode
vir depois disso? Hein, meu caralheitor?
quinta-feira, 2 de maio de 2013
dancemos, dancemos tod@s, senão, estaremos perdid@s!
é engraçado que, ao parafrasear pina para fazer meu título e falar de
uma condição hoje vital para mim, defrontei-me também com a marcação de
gênero. e com a percepção do modo como estas duas questões - a dança e o
feminismo - estão, a meu ver, em muitos momentos do meu trabalho,
misturadas... explico.
sábado, dia 27 de abril, participei da performance de rua "dançar é uma revolução!". essa ação, organizada por um coletivo (não-organizado) de mulheres, pretende-se mensal e itinerante. a idéia é que, no último sábado de cada mês, mulheres se reúnam, em alguma praça de belo horizonte, para dançar contra a violência.
na primeira vez que fizemos, foi como uma resposta ao convite do one billion rising, evento de ordem mundial que tem a seguinte chamada (aqui em versão livre): "uma em cada três mulheres será agredida durante toda a sua vida. 1 bilhão de mulheres agredidas é uma atrocidade. 1 bilhão de mulheres dançando é uma revolução". lembro-me que o dia marcado para acontecer a ação, no mundo, havia sido 14 de fevereiro. no entanto, em várias cidades do brasil a coisa estaria acontecendo no sábado, dia16.
foi legal observar isso porque, ao receber um convite de uma amiga de londrina, pelo face, para participar da ação no dia 14, ou seja, para dançar em qualquer lugar, em minha cidade, pensei que seria interessante fazer isso coletivamente (acredito muito que pelas experiências anteriores do obscena com a marcha mundial das mulheres e com outras performers feministas com quem dialogamos sempre, experiências sempre muito produtivas, do ponta de vista político e estético) e, como estava muito em cima da hora para fazer na quinta, acabei chamando esses grupo de mulheres parceiras, colaboradoras, a desenhar, para o sábado 16, uma dança/ação coletiva na praça 7, lugar tradicional de protesto na cidade.
partimos de alguns elementos já desenvolvidos pelo obscena - como a idéia de dançar cada uma a sua música, com fones de ouvido, como na ação performática festa no metrô - e de outros, que surgiram de símbolos do movimento feminista, como a cor roxa para nos vestirmos; ou das ações individuais, como a escrita a giz no chão - que desenvolvo em minhas ações desde 2008 - ou o cartaz da resistência negra, empunhada por luana tolentino.

e assim fizemos: de roxo e branco, cada uma com um set musical diferente, que escutava em seus fones de ouvido, dançamos juntas, na praça: eu, joyce malta, lissandra guimarães, clarissa alcantara, flavia fantini, debora fantini, hozana passos, luana tolentino, romênia reis, raquel medeiros, leticia castilho, thálita mota, kristoff silva, áurea carolina, scheylla bacelar...
ah, foi bom. ver uma mulher que passou por ali, parar e dançar conosco, porque "já apanhou muito e agora não apanha mais. nunca mais".foi bom dialogar com a cidade a partir do corpo e do giz. misturar, à minha dança, e à dança das outras, palavras que falavam da gente e da situação contra a qual lutamos diariamente e em razão da qual estávamos ali.
daí, a partir desse dia, uma de nós, letícia castilho falou: não seria ótimo se a gente dançasse toda semana, até as pessoas começarem a falar "ó, ali estão aquelas mulheres que dançam contra a violência..."?
achei essa idéia tão linda. levei tão a sério, que resolvi propor um grupo no facebook para organizarmos essa ação. senão semanal, como se mostrou inviável, pelo menos mensal. e uma questão para mim era: como torná-la mais marcante, inclusive para nós?
no mês seguinte era março e resolvemos fazer a ação no dia internacional das mulheres. por um lado, foi muito interessante a integração à marcha e desenvolvê-la junto com o obscena. por outro, a ação, em si, perdeu a força, diluiu-se em uma massa que, por sua vez - o que foi ótimo! - ganhou força nessa junção coletiva, como também ganhou força os corpos que traziam representações individuais - do véu muçulmano ao corpo machucado - em performances que ocorriam a todo momento.
agora, em abril, optamos em dançar na praça da rodoviária e dancei com o corpo escrito, dancei com várias palavras de ordem em meu corpo, desde "não é não" e "meu corpo, minhas regras" até "dançar é uma revolução", ou com dados concretos, como aquele da chamada: "1 a cada 3 mulheres será agredida" ou a estatística brasileira, "10 mulheres mortas por dia". e, para mim, a ação, feita assim, foi bem reveladora!
a dança se revelando quando, com a escrita no corpo, as palavras também sugeriam movimentos, para serem vistas. para serem lidas. foi uma experiência bem interessante, principalmente ao pensar que ela vem de uma trajetória de ações investigadas dentro do obscena, de experimentos que lidam com aquilo que tenho chamado de escrita performada: a escrita no calor da ação performativa.
vejo isso desde baby dolls, com as primeiras escritas a giz no chão (na verdade, vejo antes: desde a vitrine dos corpos prostituídos, proposta por marcelo rocco, ainda no teatro marília, em 2008) até espaço disponível, anuncie aqui, intervenção realizada pelo obscena no evento corpolítico, em março de 2013, passando pelas mulheres painel, experimentadas em diálogo por lissandra guimarães e por mim junto a outras mulheres, como, por exemplo, na ação performática 25 de novembro... nela, é evidente também os rastros de ações lúdicas, como a já citada festa no metrô...
por outro lado, vem se intensificando, cada vez mais, a relação com a dança. dentro do processo das ondas, um material que vinha me instigando dizia respeito à jinny, talvez a personagem mais corpo de virginia, e eu já havia até brincado com a idéia de uma dança de palavras e de tecer um tango com elas - clarissa já havia até feito uma primeira versão musicada disso... e, recentemente, fred caiafa propôs trabalhar também a partir da dança, do que ele está chamando de uma dança de afetações.
com o interesse cada vez mais nítido de levar as ondas para as ruas, resolvemos, então, eu e ele, sair - e para isso chamamos joyce, em primeiro lugar, para dialogar conosco a partir de seus materiais sonoros e performáticos, e também todos os demais, incluindo clóvis, que não está nas ondas, mas está - para uma deriva dançada pelo centro da cidade. essa deriva tinha o intuito de traçar um mapa psico-geográfico-corporal, uma corpografia das luzes e sombras da cidade.
fomos eu, fred, joyce, clóvis e leandro. nos encontramos às sete, na praça da estação, e rumamos em direção ao viaduto de santa tereza, pela andradas. joyce, com o gravador, captava nossas vozes e os sons do centro nervoso. nós todos nos lançamos em distintas experiências.
eu parti em busca da sombra. e como era múltipla e tênue! como a cidade é iluminada! ou, como disse clóvis, ensolarada... além da sombra, uma frase me guiava: estou coberta por carne quente. como as palavras escritas no corpo, no outro dia, essas palavras inscritas na pele guiavam meu movimento. em diálogo com as sombras. e com as luzes que passavam.
quando chegamos embaixo do viaduto de santa tereza, a configuração do trabalho se alterou. se antes, o movimento era de ordem bem individual, ali ganhou uma dimensão mais coletiva. trabalhávamos em um mesmo fluxo de ações. recuperamos movimentos já improvisados nas ondas. ensaiamos dançar com a arquitetura e com os passantes. ações surgiam fugazes, como o prolongado aplauso aos usuários de um ônibus que parara no sinal fechado.
da próxima vez, quero experimentar o giz.
sábado, dia 27 de abril, participei da performance de rua "dançar é uma revolução!". essa ação, organizada por um coletivo (não-organizado) de mulheres, pretende-se mensal e itinerante. a idéia é que, no último sábado de cada mês, mulheres se reúnam, em alguma praça de belo horizonte, para dançar contra a violência.
na primeira vez que fizemos, foi como uma resposta ao convite do one billion rising, evento de ordem mundial que tem a seguinte chamada (aqui em versão livre): "uma em cada três mulheres será agredida durante toda a sua vida. 1 bilhão de mulheres agredidas é uma atrocidade. 1 bilhão de mulheres dançando é uma revolução". lembro-me que o dia marcado para acontecer a ação, no mundo, havia sido 14 de fevereiro. no entanto, em várias cidades do brasil a coisa estaria acontecendo no sábado, dia16.
foi legal observar isso porque, ao receber um convite de uma amiga de londrina, pelo face, para participar da ação no dia 14, ou seja, para dançar em qualquer lugar, em minha cidade, pensei que seria interessante fazer isso coletivamente (acredito muito que pelas experiências anteriores do obscena com a marcha mundial das mulheres e com outras performers feministas com quem dialogamos sempre, experiências sempre muito produtivas, do ponta de vista político e estético) e, como estava muito em cima da hora para fazer na quinta, acabei chamando esses grupo de mulheres parceiras, colaboradoras, a desenhar, para o sábado 16, uma dança/ação coletiva na praça 7, lugar tradicional de protesto na cidade.
partimos de alguns elementos já desenvolvidos pelo obscena - como a idéia de dançar cada uma a sua música, com fones de ouvido, como na ação performática festa no metrô - e de outros, que surgiram de símbolos do movimento feminista, como a cor roxa para nos vestirmos; ou das ações individuais, como a escrita a giz no chão - que desenvolvo em minhas ações desde 2008 - ou o cartaz da resistência negra, empunhada por luana tolentino.

e assim fizemos: de roxo e branco, cada uma com um set musical diferente, que escutava em seus fones de ouvido, dançamos juntas, na praça: eu, joyce malta, lissandra guimarães, clarissa alcantara, flavia fantini, debora fantini, hozana passos, luana tolentino, romênia reis, raquel medeiros, leticia castilho, thálita mota, kristoff silva, áurea carolina, scheylla bacelar...
ah, foi bom. ver uma mulher que passou por ali, parar e dançar conosco, porque "já apanhou muito e agora não apanha mais. nunca mais".foi bom dialogar com a cidade a partir do corpo e do giz. misturar, à minha dança, e à dança das outras, palavras que falavam da gente e da situação contra a qual lutamos diariamente e em razão da qual estávamos ali.
daí, a partir desse dia, uma de nós, letícia castilho falou: não seria ótimo se a gente dançasse toda semana, até as pessoas começarem a falar "ó, ali estão aquelas mulheres que dançam contra a violência..."?
achei essa idéia tão linda. levei tão a sério, que resolvi propor um grupo no facebook para organizarmos essa ação. senão semanal, como se mostrou inviável, pelo menos mensal. e uma questão para mim era: como torná-la mais marcante, inclusive para nós?
no mês seguinte era março e resolvemos fazer a ação no dia internacional das mulheres. por um lado, foi muito interessante a integração à marcha e desenvolvê-la junto com o obscena. por outro, a ação, em si, perdeu a força, diluiu-se em uma massa que, por sua vez - o que foi ótimo! - ganhou força nessa junção coletiva, como também ganhou força os corpos que traziam representações individuais - do véu muçulmano ao corpo machucado - em performances que ocorriam a todo momento.
foto: Matheus Silva
agora, em abril, optamos em dançar na praça da rodoviária e dancei com o corpo escrito, dancei com várias palavras de ordem em meu corpo, desde "não é não" e "meu corpo, minhas regras" até "dançar é uma revolução", ou com dados concretos, como aquele da chamada: "1 a cada 3 mulheres será agredida" ou a estatística brasileira, "10 mulheres mortas por dia". e, para mim, a ação, feita assim, foi bem reveladora!
Foto: Nina Caetano
a dança se revelando quando, com a escrita no corpo, as palavras também sugeriam movimentos, para serem vistas. para serem lidas. foi uma experiência bem interessante, principalmente ao pensar que ela vem de uma trajetória de ações investigadas dentro do obscena, de experimentos que lidam com aquilo que tenho chamado de escrita performada: a escrita no calor da ação performativa.
vejo isso desde baby dolls, com as primeiras escritas a giz no chão (na verdade, vejo antes: desde a vitrine dos corpos prostituídos, proposta por marcelo rocco, ainda no teatro marília, em 2008) até espaço disponível, anuncie aqui, intervenção realizada pelo obscena no evento corpolítico, em março de 2013, passando pelas mulheres painel, experimentadas em diálogo por lissandra guimarães e por mim junto a outras mulheres, como, por exemplo, na ação performática 25 de novembro... nela, é evidente também os rastros de ações lúdicas, como a já citada festa no metrô...
por outro lado, vem se intensificando, cada vez mais, a relação com a dança. dentro do processo das ondas, um material que vinha me instigando dizia respeito à jinny, talvez a personagem mais corpo de virginia, e eu já havia até brincado com a idéia de uma dança de palavras e de tecer um tango com elas - clarissa já havia até feito uma primeira versão musicada disso... e, recentemente, fred caiafa propôs trabalhar também a partir da dança, do que ele está chamando de uma dança de afetações.
com o interesse cada vez mais nítido de levar as ondas para as ruas, resolvemos, então, eu e ele, sair - e para isso chamamos joyce, em primeiro lugar, para dialogar conosco a partir de seus materiais sonoros e performáticos, e também todos os demais, incluindo clóvis, que não está nas ondas, mas está - para uma deriva dançada pelo centro da cidade. essa deriva tinha o intuito de traçar um mapa psico-geográfico-corporal, uma corpografia das luzes e sombras da cidade.
fomos eu, fred, joyce, clóvis e leandro. nos encontramos às sete, na praça da estação, e rumamos em direção ao viaduto de santa tereza, pela andradas. joyce, com o gravador, captava nossas vozes e os sons do centro nervoso. nós todos nos lançamos em distintas experiências.
eu parti em busca da sombra. e como era múltipla e tênue! como a cidade é iluminada! ou, como disse clóvis, ensolarada... além da sombra, uma frase me guiava: estou coberta por carne quente. como as palavras escritas no corpo, no outro dia, essas palavras inscritas na pele guiavam meu movimento. em diálogo com as sombras. e com as luzes que passavam.
quando chegamos embaixo do viaduto de santa tereza, a configuração do trabalho se alterou. se antes, o movimento era de ordem bem individual, ali ganhou uma dimensão mais coletiva. trabalhávamos em um mesmo fluxo de ações. recuperamos movimentos já improvisados nas ondas. ensaiamos dançar com a arquitetura e com os passantes. ações surgiam fugazes, como o prolongado aplauso aos usuários de um ônibus que parara no sinal fechado.
da próxima vez, quero experimentar o giz.
Marcadores:
escritas performadas,
questões feministas
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Espaço do Silêncio: manifesto.
Foto: Roque Soares
Ação. Açã: palavra tupi guarani que
significa Um grito, um protesto.
Quero cantar a antropofagia do índio – só a
antropofagia nos une! – que honra seu inimigo deglutindo sua carne e absorvendo
sua força cultura alma numa interpenetração materializada na alegria dos
corpos. Somos todos Guarani Kaiowá!
Quero cantar a bravura dos mais de 600
índios a ocupar o Plenário da Casa do Povo. Casa do Povo: É Mentira muitas
vezes repetida! Fora, invasores! A Assembléia Legislativa não nos representa!
Somos todos Tupiniquim Tupi Guajajara Guarani Kaiowá Kaiapó Maxakali Munduruku Jê
Pataxó Bororó Tukano Kariri
Karajá Kaingang Nambikwara Kamayurá Maku Sateré Mawé Ñandeva Yanomámi Matis Aikewara
Kadiwéu WaiWai Uru-Eu-Wau-Wau Xavante Xokren Xikrin Iawalapiti Txikão
Txu-Karramãe Zuruahã Ramkokamenkrá Suyá... e tantos outros! 240 povos, 183 línguas, 513
anos de genocídio.
Antes do português descobrir o Brasil, o
Brasil tinha descoberto a felicidade.
Não vou cantar aqui (queria, antes, calar!)
a devoração das máquinas rodas de Hilux dilacerando os corpos de meninos
índios.
Queria calar as máquinas que em mãos de
fazendeiros ou delegados federais cospem balas a atravessar a cabeça de
adolescente guarani kaiowá ou chefe munduruku.
Calar as máquinas corpos machos no comando
que estupram índias Marlene em gesto mil vezes repetido desde que o português
pisou em Pindorama. Ah, fosse dia de sol, teria o índio despido de todo
preconceito o português ao invés deste cobri-lo de vergonha, religião e morte?
Quero juntar minha voz à voz dos povos
indígenas que clamam por justiça! Açã!
Nota: atualmente, cerca de 50 homens, 50
mulheres e 70 crianças, índios Guarani Kaiowá vivem às margens de seu
território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay, às margens do rio Hovy e das
terras em que deveriam ser suas, em estado de morte anunciada: isolados, sem
assistência e cercados de pistoleiros. Os índices de mortalidade infantil são
altos, mas mais altos são os números de índios assassinados e de suicídio entre
os jovens índios em busca da terra sem males.
Atualmente, 80% dos suicídios cometidos neste
país, são cometidos por índios.
Minha alma grita e não pode se calar.
Nina Guarani Kaiowá Caetano
Em Belo Horizonte, Pindorama.
Ano 459 da Deglutição do Bispo Sardinha.
domingo, 21 de abril de 2013
performance: ou sobre a educação de nossos filhos
Na última sexta, dia 19 de abril, realizei com meus alunos da
Espaço Escola uma intervenção com o tema "Dia do Índio?". Esses
são alunos da oficina Performance e Intervenções Urbanas – que ofereci à escola onde meu filho estuda, no intuito de trabalhar com o fundamental II, em que ele está inserido. Mas em que consiste o meu trabalho com esse grupo de adolescentes
entre 12 e 17 anos?
É meu interesse, com essa oficina, utilizar uma linguagem
artística aberta, que não exige o aprendizado de nenhuma técnica específica –
como bem lembrou a estudiosa de performance, Denise Pedron, no programa do qual
participamos ambas, naquela mesma noite (vou tratar disso mais tarde) – para
levar esses adolescentes a uma reflexão mais ampla dos imbricamentos entre
formação sensível e o papel que exercem como cidadãos, das relações entre
estética e política...
É uma das minhas preocupações o distanciamento que percebo neles
em relação a questões candentes da sociedade que os cerca, uma certa reprodução
de idéias preconcebidas em relação a outras realidades sociais, distintas
daquela da qual provêm. E penso que a performance pode ser um ótimo meio de implicá-los nisso. Para explicitar meus desejos, chamo Eleonora Fabião[1] em
meu socorro:
Esta é, a meu
ver, a força da performance: turbinar a relação do cidadão com a polis; do
agente histórico com seu contexto; do vivente com o tempo, o espaço, o corpo, o
outro, o consigo. Esta é a potência da performance: deshabituar, des-mecanizar,
escovar a contra-pêlo. Trata-se de buscar maneiras alternativas de lidar com o
estabelecido, de experimentar estados psicofísicos alterados, de criar
situações que disseminam dissonâncias diversas: dissonâncias de ordem
econômica, emocional, biológica, ideológica, psicológica, espiritual,
identitária, sexual, política, estética, social, racial... (FABIÃO, 2008: 237)
Com essas questões como norte, pensei em trabalhar, na
oficina, a partir da experimentação de ações que possibilitassem, a eles, a
imersão concreta no cotidiano da cidade, permitindo tanto o re-conhecimento do
entorno da escola quanto a descoberta do centro da cidade, local pouco freqüentado
por eles. No centro, realizamos duas ações, as duas relacionadas a datas “comemorativas”:
8 de março, Dia Internacional da Mulher e 19 de abril, Dia do Índio.
Antes da realização dessas ações – sobre as quais falarei em
seguida – trabalhei com o grupo a intervenção urbana Cidade dos Afetos, fruto de uma proposição de Clóvis Domingos e já
realizada pelo Obscena Agrupamento em duas ocasiões: a primeira vez, como compartilhamento
de práticas, com o coletivo Os Conectores, em abril de 2011 e, a segunda, integrando
o evento Nós da Paz, organizado pela sociedade civil como manifestação contra a
violência na cidade. A intervenção consiste na escrita de cartas de afeto que
são, em seguida, “abandonadas” pela cidade. Aqui, novamente recorro à Fabião:
Um programa [de performance] é um ativador de
experiência. Longe de um exercício, prática preparatória para uma futura ação,
a experiência é a ação em si mesma. [...] Uma experiência, por definição,
determina um antes e um depois, corpo pré e corpo pós-experiência. Uma
experiência é necessariamente transformadora, ou seja, um momento de trânsito
da forma, literalmente, uma trans-forma. [...] Programas criam corpos –
naqueles que os performam e naqueles que são afetados pela performance. [...] O
corpo é definido [por Espinosa] pelos afetos que é capaz de gerar, gerir,
receber e trocar (FABIÃO, 2008: 237-238).
Para realizá-la com os alunos da oficina, discuti, primeiro, algumas
questões relativas ao uso do espaço público – tais como privatização,
violência, insegurança – e, a partir de suas inquietações, propus que cada um produzisse
cartas como se fossem endereçadas a um amigo (ainda que desconhecido). Depois, demos
uma volta pelo bairro e fomos abandonando-as em pontos de ônibus,
portas de prédios, canteiros.
As ações seguintes, como já disse, foram no centro. Para o 8
de março, discutimos diversas possibilidades: de ações microscópicas, nas quais
a presença do corpo seria latente[2], à
perspectiva de se inserir o corpo na prática. Acabamos ficando com o meio
termo: produziríamos cartazes que levantassem questões – às vezes, a partir da
ironização de discursos machistas e da desconstrução de estereótipos; às vezes,
buscando as palavras de ordem de movimentos feministas – como violência contra
a mulher e mercantilização do corpo. Posteriormente, sairíamos em um bloco
unido, vestido de roxo e/ou branco, pelas ruas do centro. Esse bloco pararia a
um determinado comando e criaria uma formação que permitisse colocar em
destaque os cartazes, alguns bastante interessantes como o de Thomás Caetano, “lugar de mulher é
onde ela quiser”.
Para o 19 de abril que, como o 8 de março, caiu,
coincidentemente, no dia em que a oficina acontece, pensei em trabalhar com
eles a partir de um estímulo que eu já estava começando a explorar: os
espaços-gestos de Artur Barrio, artista
plástico português que faz parte dos pesquisas teóricas e práticas do Obscena.
Esse material já tinha gerado, inclusive, uma manifest-ação que realizo,
justamente, sobre a questão indígena, mais especificamente sobre a situação dos
índios guarani kaiowá, no Mato Grosso do Sul: Espaço do Silêncio.
A idéia é desenvolver a criação desses espaços-gestos com eles, em explorações dos espaços da escola e/ou da cidade. Como a maioria ainda não havia conseguido escolher aquele com o qual pretende trabalhar, centramos no espaço-gesto proposto por Benjamin Libânio e Ana Clara Bastos: o 26º gesto, ou o espaço do ler em voz alta; além do proposto por Anna Luisa Lemos: o 3ºgesto ou o espaço dos gritos. Contrapomos a esses, o espaço do silêncio (27º gesto), com o qual eu já trabalhava. Deste, retiramos os signos: a cruz vermelha na boca e a faixa vermelha nos olhos. Novamente, eles quiseram trabalhar com cartazes e pensamos, então, em criar um espaço de ler, a partir das cartas dos índios (tanto dos guarani kaiowá quanto de DaiaraTukano, ativista pela causa indígena), e também de manifestar-se, ou seja, de “gritar”: fosse um grito na garganta ou no papel.
A idéia é desenvolver a criação desses espaços-gestos com eles, em explorações dos espaços da escola e/ou da cidade. Como a maioria ainda não havia conseguido escolher aquele com o qual pretende trabalhar, centramos no espaço-gesto proposto por Benjamin Libânio e Ana Clara Bastos: o 26º gesto, ou o espaço do ler em voz alta; além do proposto por Anna Luisa Lemos: o 3ºgesto ou o espaço dos gritos. Contrapomos a esses, o espaço do silêncio (27º gesto), com o qual eu já trabalhava. Deste, retiramos os signos: a cruz vermelha na boca e a faixa vermelha nos olhos. Novamente, eles quiseram trabalhar com cartazes e pensamos, então, em criar um espaço de ler, a partir das cartas dos índios (tanto dos guarani kaiowá quanto de DaiaraTukano, ativista pela causa indígena), e também de manifestar-se, ou seja, de “gritar”: fosse um grito na garganta ou no papel.
Foto de Roque Soares
Foi interessante observar como eles, de início muito assustados com a idéia de ir ao centro - tido como espaço perigoso, de risco - estão agora, pelo menos a maioria, empolgados com a possibilidade de um diálogo efetivo com a cidade, fora dos muros da escola. De como eles - e elas - de muito envergonhados e com dificuldades de se colocar (ou, até mesmo, de participar: no 8 de março, por exemplo, realizaram a ação as meninas todas, mas somente um menino, dos seis que fazem a oficina) passaram a exigir de si posicionamento, como foi o caso de Benjamin, que queria fazer - e fez - leituras em voz alta da carta da comunidade guarani kaiowá; e também das meninas, principalmente de Anna Luisa Lemos, Ana Clara Bastos e Laura Almeida que, muito empenhadas em tornar visível nosso manifesto, propuseram circular pela Praça da Estação, local onde realizamos a ação, e chegar perto das pessoas que estavam nos pontos de ônibus. Orgulho.
P.S.: em tempo. No programa Brasil das Gerais - Rede Minas de TV - daquela noite, o tema foi Performance. Para o bate-papo foram convidados, além de mim, os artistas e pesquisadores Denise Pedron, Roberson Nunes e Marcos Paulo Rolla. Nele, discutimos vários aspectos interessantes da performance, entre eles isso: o fato de que a performance, justamente por ser uma arte sem fronteiras, definições rígidas ou limites claros, permite ser vivenciada, como experiência estética, pelo cidadão comum, sem formação técnica específica. Aquilo que já apontei no texto acima, quando mencionei Denise.
P.S.: em tempo. No programa Brasil das Gerais - Rede Minas de TV - daquela noite, o tema foi Performance. Para o bate-papo foram convidados, além de mim, os artistas e pesquisadores Denise Pedron, Roberson Nunes e Marcos Paulo Rolla. Nele, discutimos vários aspectos interessantes da performance, entre eles isso: o fato de que a performance, justamente por ser uma arte sem fronteiras, definições rígidas ou limites claros, permite ser vivenciada, como experiência estética, pelo cidadão comum, sem formação técnica específica. Aquilo que já apontei no texto acima, quando mencionei Denise.
[1] FABIÃO, Eleonora. Performance e Teatro: poéticas e políticas
da cena contemporânea. Disponível na versão online da revista Sala Preta,
do PPGAC – ECA-USP: v.8, n.1 (2008):
[2] Refere-se aos "rastros" deixados no espaço urbano pela ação realizada, uma "presença" latente do corpo. Conceito apresentado a mim por
Zalinda Cartaxo, durante a mesa de debate Performance
e Política, que organizei para o Simpósio H#1: CORPOLÍTICO.
quinta-feira, 7 de março de 2013
porque me ergo
Foto de Davi Madureira Victral
porque me ergo e vou me erguer hoje.
e amanhã, que é 8 de março.
eu estava aqui pensando na campanha lançada pela página Um Bilhão que se ergue e em mais um bilhão de coisas acontecimentos ações que têm movimentado meus últimos anos.
me lembrando de dançar é uma revolução, ação que realizamos eu e mais uma dúzia de mulheres há menos de um mês, em uma praça do centro de bh. ação que realizamos reverberando o movimento de um bilhão de mulheres em todo o globo: o movimento de um bilhão de mulheres dançando contra a violência. mulheres fazendo parte de uma permanente revolução, pois "não há revolução sem dança".
estava aqui me lembrando de algumas das várias questões que colocam a mim em constante movimento diário: as notícias atrozes das violências sofridas, o acintoso cinismo da mais nova propaganda machista, a banalização da violência e da mercantilização do corpo. está aí a odiosa propaganda da oitv que - em "homenagem" ao dia internacional da mulher - coloca como "mais um espaço conquistado por elas" o velho e já cansativo lugar de objeto sexual. está aí o espaço disponível para anúncio nas coxas das meninas. está aí a repetição automática de frases como "mulher tem que se valorizar" feita por uma adolescente de 17 anos ou por um menino de 13.
está aí porque me ergo. fico pensando, então, na oficina de performance e intervenções urbanas que ministro na escola de meu filho. amanhã vou sair com os meus alunos, adolescentes classe média de 11 a 17 anos, para uma aventura no centro da cidade: lá, vamos abandonar cartas - refazendo a ação cidade dos afetos, do obscena agrupamento - e empunhar cartazes que falem das várias violências de gênero que sofremos todos os dias, nas ruas dessa e de outras (todas?) cidades do meu brasil.
são 12 adolescentes, entre eles meu filho, e, para isso, na semana passada fizemos um jogo em que soltávamos frases aleatórias relacionadas à mulher: eu provocava, jogando frases feitas ou estatísticas reais. surgiu muito material interessante. e muito questionamento. sobre o lugar da mulher. sobre o lugar do homem.
amanhã vou também sair para dançar. vou empunhar meus cartazes, meu giz e minha escrita. amanhã vou dançar porque 1 em cada 3 mulheres do mundo sofre, em algum momento de sua vida, uma agressão. vou dançar porque acredito que, apesar dessa atrocidade, somos mais fortes. somos incontornáveis e irreversíveis. vou me erguer porque em nossa última dança uma mulher cruzou a praça e se juntou a nós. uma mulher que tinha apanhado muito do marido, mas agora não apanhava mais. nunca mais.
venha mulher, essa dança é sua.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Dançar é uma revolução!
4.465 mulheres mortas por ano no brasil. 70% vítimas de maridos, namorados, noivos.
4.465 mulheres mortas é uma atrocidade.
4.465 mulheres dançando é uma revolução!
4.465 mulheres mortas é uma atrocidade.
4.465 mulheres dançando é uma revolução!
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
eu aborto, tu abortas, somos todas clandestinas
Eu fiz um aborto. Já mãe, com a minha vida resolvida e sem desejo nenhum de ter outro filho e "começar tudo de novo", resolvi abortar. E como foi difícil! Não dentro de mim. A decisão estava tomada e eu estava tranqüila, apesar dos sentimentos de culpa e sensações supersticiosas (resquícios de minha criação católica) de que eu seria punida. Sensações que eram intensificadas na medida em que eu percebia como era difícil fazer um aborto em um país no qual ele não é legalizado. Não conseguia referências médicas - quando as conseguia, os médicos não mais atuavam pelo risco que isso implicava - e não consegui acesso aos remédios que possibilitariam realizar um aborto medicinal. Quando obtinha informações, os remédios eram caríssimos e a fonte não confiável (corria o risco de comprar os remédios, tomá-los e a gravidez não ser interrompida). Percebi o quanto a ilegalidade do procedimento favorece o nascimento de um mercado que se aproveita da fragilidade da situação em que as mulheres se encontram, de um mercado que explora o desespero alheio.
Por fim, com uma ONG internacional, consegui o oferecimento dos medicamentos, em um valor razoável (cobrado para que outras mulheres, sem condição financeiras, possam recebê-los de graça)
Nesse meio tempo ficava o tempo inteiro imaginando se eu não tivesse as condições que eu tinha: financeiras, emocionais, familiares. Eu estaria perdida! Sozinha, sem opções e sem ajuda e com muito medo: da punição legal, do risco físico concreto e confrontada com a possibidade de ter que criar um filho indesejado. UM FILHO INDESEJADO. Quando, de fato, as coisas poderiam (e deveriam) ocorrer de modo muito mais simples e seguro.
Finalmente, os medicamentos chegaram no último minuto do segundo tempo e realizei o aborto: este foi fisicamente muito tranquilo. Ou seja, se houvesse descriminalização do aborto, o processo seria bastante simples: sem medo, sem culpa e sem risco. Não para mim. Mas para as milhares de mulheres que engravidam sem querer e que não têm condições ou não querem levar a gravidez a termo. Está na hora de acabar com essa hipocrisia social: os abortos acontecem, independente da ilegalidade. Esta só favorece a exploração da situação de desespero em que as mulheres se encontram. Só favorece o mercado negro dos medicamentos. Só favorece o risco e a morte de milhares de mulheres, todos os anos.
As mulheres "entre 20 e 29 anos, em união estável, com até oito anos de estudo, trabalhadoras, católicas e com pelo menos um filho" formam o maior grupo que pratica aborto no país,segundo estudo realizado pela Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ainda segundo a pesquisa, entre "70,8% e 90,5% de quem opta pelo procedimento já tem filhos".
- Mais de 1 milhão de gestações foram interrompidas em 2005.
- Pelo menos 3,7 milhões de brasileiras entre 15 e 49 anos realizaram aborto. Ou seja, 7,2% das mulheres em idade reprodutiva. Menos da metade chega ao Sistema Único de Saúde (SUS).
- De 51% a 82% dos abortos são realizados por mulheres entre 20 e 29 anos. Adolescentes respondem por 7% a 9% das estatísticas.
- Somente 2,5% das interrupções de gravidez ocorreram em um contexto de relações eventuais.
- Mulheres que vivenciam relações estabelecidas (tem marido, companheiro ou namorado) responde pela maior parte dos abortos: 70% dos casos.
- Entre 70,8% e 90,5% de quem decide pelo procedimento já possui filhos.
- Mais de 50% das mulheres que abortaram nas regiões Sul e Sudeste usavam algum método anticoncepcional, principalmente pílulas. No Nordeste, essa porcentagem oscila entre 34% e 38,9%.
- Das adolescentes, entre 60% e 83,7% delas não pretendiam engravidar, e 73% cogitaram a interrupção da gestação, sendo que 12,7% a 40% das garotas tentaram abortar. Entre aquelas que consumaram o ato, 25% voltaram a esperar um filho.
- A maior parte das mulheres que fizeram aborto se declarara católica, com 51% a 82% de prevalência, seguida pela que professa a fé espírita, com 4,5% a 19,2%. Em último lugar estão as evangélicas - entre 2,6% e 12,2%.
- De 50,4% a 84,6% das mulheres que cessaram a gestação utilizaram o medicamento Cytotec. Entre as adolescentes, o método também aparece com destaque: mais de 50% afirmaram tomar o Cytotec ou ingerir algum tipo de chá.
- Nos anos 2000, um estudo entre jovens de 18 a 24 anos mostrou que renda familiar e escolaridade foram fatores associados à indução do aborto na primeira gravidez: quanto maior a renda e a escolaridade, maiores as chances de a primeira gravidez resultar em um aborto.
Fonte da UFPel: relatório Aborto e Saúde Pública: 20 anos de Pesquisas no Brasil.- Pelo menos 3,7 milhões de brasileiras entre 15 e 49 anos realizaram aborto. Ou seja, 7,2% das mulheres em idade reprodutiva. Menos da metade chega ao Sistema Único de Saúde (SUS).
- De 51% a 82% dos abortos são realizados por mulheres entre 20 e 29 anos. Adolescentes respondem por 7% a 9% das estatísticas.
- Somente 2,5% das interrupções de gravidez ocorreram em um contexto de relações eventuais.
- Mulheres que vivenciam relações estabelecidas (tem marido, companheiro ou namorado) responde pela maior parte dos abortos: 70% dos casos.
- Entre 70,8% e 90,5% de quem decide pelo procedimento já possui filhos.
- Mais de 50% das mulheres que abortaram nas regiões Sul e Sudeste usavam algum método anticoncepcional, principalmente pílulas. No Nordeste, essa porcentagem oscila entre 34% e 38,9%.
- Das adolescentes, entre 60% e 83,7% delas não pretendiam engravidar, e 73% cogitaram a interrupção da gestação, sendo que 12,7% a 40% das garotas tentaram abortar. Entre aquelas que consumaram o ato, 25% voltaram a esperar um filho.
- A maior parte das mulheres que fizeram aborto se declarara católica, com 51% a 82% de prevalência, seguida pela que professa a fé espírita, com 4,5% a 19,2%. Em último lugar estão as evangélicas - entre 2,6% e 12,2%.
- De 50,4% a 84,6% das mulheres que cessaram a gestação utilizaram o medicamento Cytotec. Entre as adolescentes, o método também aparece com destaque: mais de 50% afirmaram tomar o Cytotec ou ingerir algum tipo de chá.
- Nos anos 2000, um estudo entre jovens de 18 a 24 anos mostrou que renda familiar e escolaridade foram fatores associados à indução do aborto na primeira gravidez: quanto maior a renda e a escolaridade, maiores as chances de a primeira gravidez resultar em um aborto.
Estudos do Instituto Alan Guttmacher (IAG, em www.agi-usa.org) informam que nos países em desenvolvimento ocorrem 182 milhões de gestações anuais. Estima-se que 36% dessas gestações não foram planejadas, entre as quais 20% terminam em aborto.
A América Latina e o Caribe contribuem significativamente para estes números. As estimativas feitas pelo IAG apontam que, a cada ano, são realizados cerca de 4 milhões de abortos clandestinos e inseguros nas duas regiões.
A Organização Mundial de Saúde divulgou dado sobre mortes maternas relacionadas ao aborto. Segundo a OMS, 21% das mortes (cerca de 6 mil/ano) relacionadas com a gravidez, o parto e o pós-parto, nesses países, têm como causa as complicações do aborto realizado de forma insegura.
Segundo o documento Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, publicado pelo Ministério da Saúde em março de 2004, no Brasil 31% de gestações terminam em aborto. Anualmente, ocorrem no país aproximadamente 1,4 milhão de abortamentos, entre espontâneos e inseguros, com uma taxa de 3,7 abortos para 100 mulheres de 15 a 49 anos.
Segundo a ANDI (Agência de Notícia dos Direitos da Infância), a cada dia cerca de 140 meninas têm a gravidez interrompida. A cada hora, seis adolescentes entram em processo de abortamento.
Ainda segundo o documento, em 2002 foram registrados 53,77 óbitos maternos por 100 mil nascidos vivos, devido a complicações na gestação, no parto ou no puerpério (período de 42 dias após o parto). Entre as principais causas dessas mortes, destacam-se a hipertensão (13,3%), hemorragia (7,6%), infecção puerperal (3,9%) e aborto (2,7%). No entanto, o documento faz uma importante ressalva: para a Área Técnica de Saúde da Mulher, os casos de mortes por abortamento podem ter sido maiores, já que muitas vezes as complicações decorrentes do aborto são registradas como hemorragias e infecções, o que pode camuflar as estatísticas do abortamento.
Dados do SUS indicam que em 2004 foram realizados 1.600 abortos legais em 51 serviços especializados do SUS ao custo de R$ 232 mil. No mesmo ano, ocorreram no SUS 244 mil internações motivadas por curetagens pós-aborto ? entre estes abortamentos espontâneos ou voluntários e feitos na clandestinidade - orçadas em R$ 35 milhões. As curetagens são o segundo procedimento obstétrico mais praticado nas unidades de internação, superadas apenas pelos partos normais.
Foram fontes para essa compilação, os artigos http://www.nominuto.com/noticias/cidades/aborto-e-a-terceira-causa-de-morte-materna-no-brasil/52084/ e http://www.skyscraperlife.com/boteco/14530-aborto-no-brasil.html
Veja também: precisa de um aborto?
este post faz parte da blogagem coletiva pela descriminalização e legalização do aborto:
http://blogueirasfeministas.com/2012/09/blogagem-coletiva-pela-legalizacao-do-aborto/
este post faz parte da blogagem coletiva pela descriminalização e legalização do aborto:
http://blogueirasfeministas.com/2012/09/blogagem-coletiva-pela-legalizacao-do-aborto/
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